Política e Resenha

ARTIGO – (Quando a Política Silencia e a Vida Cobra a Conta: A Partida de Alan Sanches)

 

 

 

Padre Carlos

A morte súbita do deputado estadual Alan Sanches, neste sábado, 17, vítima de um infarto fulminante, provoca um daqueles silêncios que nem a retórica política consegue preencher. Há mortes que interrompem trajetórias; outras, como esta, interrompem também diálogos, projetos e expectativas. A política baiana acorda mais pobre, e a sociedade, mais uma vez, é convidada a refletir sobre a fragilidade da vida, mesmo entre aqueles que dedicaram a existência ao cuidado do outro.

Formado em Medicina pela Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP), ortopedista por vocação e político por escolha, Alan Sanches representava uma figura cada vez mais rara na vida pública brasileira: alguém que transitava com naturalidade entre o consultório médico e o plenário legislativo, sem perder de vista a dimensão humana do poder. Sua trajetória revela uma geração de políticos que não nasceram exclusivamente da política, mas chegaram a ela a partir do serviço.

Sua caminhada institucional começou na Câmara Municipal de Salvador, onde exerceu dois mandatos como vereador, ainda pelo PMDB. Ali, aprendeu o chão áspero da política local, o contato direto com as demandas urbanas, as urgências da saúde pública e as contradições de uma cidade desigual. Não por acaso, renunciou ao cargo no segundo mandato para alçar voos maiores — decisão que, à época, revelou ambição, mas também coragem política.

Eleito deputado estadual em 2010, Alan Sanches construiu uma trajetória contínua na Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), atravessando diferentes partidos — PSD, DEM e, por fim, União Brasil. Essa travessia partidária, comum na política brasileira, não apagou sua identidade principal: a de um parlamentar com forte ligação com a área da saúde, defensor do SUS, atento às pautas médicas e hospitalares, e conhecedor prático das dores que os números frios dos relatórios muitas vezes escondem.

Há uma ironia cruel no fato de um médico, especialista em cuidar do corpo humano, ser vencido por um ataque cardíaco fulminante. Isso nos lembra que o conhecimento não imuniza contra a finitude, e que o poder, por maior que seja, não compra mais tempo. A morte de Alan Sanches expõe também o ritmo desumano imposto à vida política: agendas extenuantes, pressões permanentes, disputas silenciosas e o desgaste emocional que raramente vira pauta.

Neste momento de luto, é preciso resistir à tentação da canonização fácil ou da crítica inoportuna. Alan Sanches foi um homem de seu tempo, com virtudes e limites, mas sua trajetória revela compromisso, presença e disposição para servir. Em tempos de descrédito da política, sua morte reacende uma pergunta incômoda: quem cuidará da política quando até os que cuidam da saúde tombam no caminho?

A Bahia perde um deputado, Salvador perde um ex-vereador, a medicina perde um colega, e a democracia perde uma voz que ainda tinha o que dizer. Aos familiares, amigos, eleitores e colegas de parlamento, fica o peso do luto. À sociedade, fica a responsabilidade de lembrar que por trás dos cargos existem pessoas — e que a vida, como a política, não admite adiamentos indefinidos.

Que a morte de Alan Sanches não seja apenas uma nota triste no noticiário, mas um chamado à humanização da política, ao cuidado com quem cuida e à consciência de que o tempo, esse legislador implacável, não concede reeleição.