
Padre Carlos
A política não é um ringue. Ou, ao menos, não deveria ser. Quando o embate substitui o entendimento e a retórica inflamada ocupa o lugar da responsabilidade institucional, quem sangra não são os protagonistas da cena — é a população. E, em Vitória da Conquista, o recente ruído entre a prefeita Sheila Lemos e a Câmara de Vereadores expõe um problema maior do que uma divergência pontual: revela a tentação perigosa de governar por atalhos.
A prefeita questiona tratativas realizadas pela Câmara sem a anuência do Executivo, especialmente no caso que envolve o Hospital Unimec e o atendimento “porta aberta” do SUS. E faz uma afirmação que merece ser levada a sério: negociação que impacta a gestão municipal não pode ocorrer como se o Executivo fosse mero espectador. Está correta. A Constituição desenhou competências. Não é capricho; é regra do jogo democrático.
Mas também é verdade que, quando a política se deteriora em disputa de narrativas, perde-se o essencial. A Câmara não é apêndice da Prefeitura, tampouco pode se comportar como governo paralelo. O Legislativo fiscaliza, propõe, articula — mas não executa. Quando invade a seara executiva, cria-se um conflito institucional que fragiliza a governabilidade e confunde a população.
O ponto central não é ideológico; é administrativo. Se o hospital encerrou contrato por inviabilidade financeira, não será por voluntarismo que retomará o serviço. Nenhuma instituição privada pode ser compelida a operar no prejuízo. A prefeita acerta ao lembrar que não se pode obrigar quem não quer — e talvez nem possa — prestar determinado atendimento. Gestão pública exige responsabilidade fiscal, planejamento e pactuação formal. O resto é retórica.
Agora, atenção: isso não exime o Executivo de diálogo. Governar não é apenas exercer autoridade; é saber compor. Se houve desgaste com a mesa diretora ou com vereadores, é preciso compreender as causas. Política é construção permanente de pontes. Quando elas desabam, não se resolve com discursos à imprensa; resolve-se com reunião, transparência e dados sobre a mesa.
Há ainda um elemento que não pode ser ignorado: o cidadão. O morador que precisa do SUS não está interessado na disputa de competências. Ele quer atendimento. Quer solução. Quando vê Prefeitura e Câmara trocando indiretas, conclui — com razão — que a prioridade não está clara. E quando a política falha em entregar serviços essenciais, abre-se espaço para o descrédito nas instituições. E descrédito institucional é terreno fértil para aventuras autoritárias.
Vitória da Conquista é uma cidade estratégica na Bahia. Seu sistema de saúde impacta toda a região Sudoeste. Qualquer descontinuidade no atendimento “porta aberta” do SUS tem efeito dominó. Portanto, a crise precisa ser tratada como política pública, não como disputa de poder.
O que se espera agora? Transparência nos números. Quais foram os valores do contrato? Qual o déficit alegado? Há possibilidade de repactuação? Existem alternativas técnicas viáveis? A população tem o direito de conhecer os dados. Sem informação objetiva, tudo vira versão.
A democracia não funciona com gritos; funciona com regras. Câmara e Prefeitura precisam se reencontrar institucionalmente. Não por vaidade, mas por dever. A harmonia entre os poderes não significa submissão — significa respeito às atribuições.
Se a Câmara avançou além do que lhe compete, deve recuar. Se o Executivo falhou no diálogo prévio, precisa corrigir. O que não pode é transformar a saúde pública em palco.
Política séria é aquela que entende que autoridade não é imposição; é responsabilidade. E responsabilidade se exerce com diálogo, técnica e compromisso com o interesse público.
No fim das contas, o cidadão não votou para assistir a uma disputa de versões. Votou para ter soluções.
E soluções exigem maturidade.




