Política e Resenha

ARTIGO – Quando a Soberba Antecede a Derrota: Otto Alencar e o Alerta Contra a Chapa Puro-Sangue

 

 

Padre Carlos

A política, diferentemente da teologia, não perdoa dogmas. Ela exige leitura de cenário, cálculo de forças e, sobretudo, humildade estratégica. É justamente isso que o senador Otto Alencar parece estar tentando lembrar ao PT da Bahia ao criticar a chamada chapa puro-sangue que o partido insiste em montar para as eleições de outubro.

Segundo informações divulgadas pelo site bnews_oficial e repercutidas pelo Estadão, Otto foi direto, quase brutal na franqueza: “chapa carniça pode dar problema”. A frase, forte e desconfortável, carrega mais lucidez política do que muitos discursos ensaiados. Ela expressa o temor de quem conhece profundamente o eleitorado baiano e sabe que política não se vence apenas com nomes históricos, mas com alianças vivas, oxigenadas e representativas.

O PT deseja lançar Jerônimo Rodrigues à reeleição, Rui Costa ao Senado e Jaques Wagner para renovar o mandato. Um trio de peso, sem dúvida. Mas peso excessivo, quando concentrado, pode afundar o barco. Ao excluir aliados estratégicos como o PSD da majoritária, o partido corre o risco de transformar força em isolamento, hegemonia em soberba e confiança em erro de cálculo.

Otto Alencar, ao garantir que o PSD manterá a aliança com o PT mesmo sem espaço na chapa, demonstra lealdade institucional. Mas sua insatisfação é o sintoma de algo maior: o desgaste silencioso das alianças quando um partido passa a se enxergar como dono exclusivo do projeto político. A história eleitoral brasileira — e baiana — está repleta de exemplos de chapas fechadas que terminaram derrotadas justamente por ignorarem o peso dos aliados.

Não é à toa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá ser acionado para mediar o conflito. Lula sabe, como poucos, que vitória eleitoral se constrói com coalizão, escuta e pragmatismo. Foi assim que chegou à Presidência, e é assim que tenta manter o equilíbrio entre forças que, embora aliadas, também disputam espaço, protagonismo e futuro.

A eleição na Bahia não será um passeio. O cenário nacional é mais complexo, a oposição está mais articulada e o eleitor, mais crítico. Uma chapa puro-sangue pode agradar à militância, mas nem sempre conversa com o centro político, com os aliados regionais e com o eleitor pragmático que decide eleições.

O alerta de Otto Alencar não é traição, nem ameaça. É advertência. Na política, quem não ouve os avisos dos aliados costuma aprender com o silêncio das urnas. E, quase sempre, tarde demais.