
(Padre Carlos)
No coração do sertão baiano, onde o céu de junho se enche de estrelas e pólvora, pulsa a alma vibrante do povo nordestino. A festa junina, com sua música, sua fé, sua dança e seus sabores, é também um rito de identidade. E dentro desse universo encantado, os fogos de artifício ocupam um lugar de destaque. São eles que, como num clarim ancestral, anunciam o São João, o São Pedro e a alegria coletiva que resiste ao tempo e às mudanças culturais.
Em Vitória da Conquista, cidade de raízes profundas e espírito comunitário, a tradição junina não apenas sobrevive — ela se reinventa com responsabilidade. Desde 2019, a Prefeitura deu um passo importante ao estabelecer a Feira de Fogos na Rua Eduardo Campos, bairro Boa Vista, próximo ao Atakarejo. Uma decisão que une o respeito à cultura popular com o compromisso com a segurança pública.
A feira, que comporta oito barracas licenciadas, respeita todos os protocolos exigidos pelas normas municipais e estaduais. O espaço é adequado, com distanciamento necessário de residências e comércios, sistema de iluminação de emergência, extintores, para-raios e estacionamento. Tudo sob o olhar vigilante da Defesa Civil e da Secretaria de Serviços Públicos, que transformaram o local em referência de boas práticas na comercialização de artefatos pirotécnicos.
Esse modelo de organização e fiscalização não é apenas uma medida técnica — é um gesto de valorização à cultura local. Trata-se de reconhecer que os fogos são, sim, uma tradição, mas que toda tradição precisa de mediação para não ferir o presente. O equilíbrio entre cultura e responsabilidade é o que garante sua continuidade.
Comerciantes como Márcio Karlane e Robério Santos, com décadas de experiência, testemunham a transformação do setor. Não se trata apenas de vender produtos, mas de orientar, educar, conscientizar. E isso só é possível quando o poder público age como parceiro, não como opressor. A limpeza do terreno, o suporte burocrático e os seminários educativos promovidos pela Defesa Civil mostram que o diálogo entre tradição e modernidade é não apenas possível, mas necessário.
Há ainda um aspecto simbólico importante: em tempos em que o medo é muitas vezes usado para justificar a supressão de manifestações populares, a manutenção e a organização da Feira de Fogos representam uma vitória da cultura sobre a indiferença. Afinal, preservar o São João é também preservar a memória coletiva, o senso de pertencimento e o direito de celebrar a vida com cor, luz e sons.
Que a fogueira continue acesa, não apenas nos quintais, mas no espírito do nosso povo. E que os fogos, tão amados quanto perigosos, sigam iluminando o céu com segurança, consciência e respeito à tradição.




