
Padre Carlos
“O que você fez?”
Essa pergunta de John Lennon ecoa em mim há décadas. Ela atravessa o tempo como um incômodo necessário, como um dedo apontado para a consciência. Agora, às vésperas de 2025, enquanto vejo pessoas se preparando para ceias, fogos e abraços de réveillon, essa mesma pergunta retorna com força brutal, misturada ao cheiro de pólvora nas ruas de Salvador, ao silêncio pesado das famílias que perderam tudo, ao vazio que nenhuma explicação consegue preencher.
Ricardo Antônio da Silva Souza.
Jackson Santos Macedo.
Patrick Vinícius.
Eu faço questão de escrever esses nomes. Três nomes. Três trabalhadores. Três homens que saíram de casa para cumprir seu ofício — instalar internet, conectar pessoas, construir pontes invisíveis de comunicação em um mundo cada vez mais digital. Nenhum deles voltou para casa. No Alto do Cabrito, as balas decidiram por eles. Decidiram também pelo futuro de suas esposas, de seus filhos, de todos os sonhos que carregavam em mochilas simples, cheias de ferramentas e esperança.
Eu aprendi, ao longo da vida, que a bala é um objeto pequeno, mas carrega um poder devastador. Em 1980, um “simples canalha”, como cantou Milton Nascimento, matou John Lennon. Décadas se passaram, e eu me pergunto: por que ainda não aprendemos a fazer as balas pararem? Elas continuam atravessando corpos, despedaçando famílias, esgarçando o tecido social. E não voltam. Nunca voltam.
Essa é a verdade mais cruel da violência: ela não tem retorno. Não existe “desfazer”. Não há arrependimento que ressuscite um pai, um filho, um trabalhador. A bala que sai da arma jamais retorna ao cano. O grito que explode no momento do tiro nunca mais se transforma em silêncio tranquilo.
Eu olho para a Bahia e para o Brasil de hoje e confesso: muitas vezes não reconheço mais o país onde vivi, lutei, militei e sonhei. Quando territórios inteiros passam a ser controlados por facções, quando trabalhar se torna atividade de alto risco, quando o Estado falha em sua missão mais básica — proteger a vida —, não estamos apenas diante de números frios da violência. Estamos assistindo à ruptura do contrato social, à falência moral de um projeto de nação.
Eu digo isso com dor, mas também com honestidade: não era assim o Brasil que eu queria. Não foi este Brasil que eu ajudei a construir, no qual depositei os melhores anos da minha vida, minhas convicções, minha fé na transformação social. Quantos de nós podemos repetir isso em voz alta, sentindo o peso de cada palavra? Quantos acreditaram que os filhos herdariam um país mais justo e agora veem trabalhadores morrerem apenas por estarem cumprindo seu dever?
A baianidade, essa identidade marcada pela acolhida, pelo sorriso fácil, pela fama de “boa gente”, está sob ataque. E não por forças externas, mas pela nossa incapacidade coletiva de interromper a espiral de violência que transformou bairros inteiros em campos de guerra.
John Lennon me pergunta o que fiz. E eu amplio a pergunta: o que faremos agora?
O voto, para mim, não pode ser tratado como um gesto automático, vazio, ritualístico. Em 2026, ele precisa ser compreendido como aquilo que sempre deveria ter sido: um escudo contra as balas. Um escudo real, concreto, que escolha lideranças comprometidas com segurança pública séria, com políticas sociais eficazes, com educação, emprego, dignidade e presença do Estado onde hoje só há abandono.
Eu acredito que também atiramos balas quando escolhemos mal, quando nos omitimos, quando naturalizamos a corrupção, quando tratamos a política com cinismo. Essas balas simbólicas também não voltam. Uma vez depositadas na urna, moldam destinos coletivos dos quais não conseguimos escapar por quatro anos — ou mais.
O Ano Novo, para mim, sempre carregou um simbolismo profundo. No dia 1º de janeiro, não celebramos apenas um número no calendário, mas a Confraternização Universal e o Dia Mundial da Paz. Existe algo profundamente humano nesse desejo de recomeçar, de acreditar que ainda é possível ser melhor.
Mas eu sei — e você também sabe — que símbolo sem ação vira ilusão. Paz não é apenas ausência de guerra; é construção diária de justiça, de oportunidades, de dignidade. É garantir que três trabalhadores possam sair de casa para trabalhar sem que suas famílias vivam sob o medo permanente de um telefonema trágico.
Os Beatles, aqueles jovens de Liverpool que ousaram cantar um mundo diferente, deixaram um verso que eu carrego como princípio de vida: “No final, o amor que você recebe é do mesmo tamanho do amor que você deu.”
Eu acredito nisso profundamente. Não é poesia vazia; é uma lei moral. E ela nos interpela agora: que amor estamos oferecendo ao Brasil? Que país estamos construindo com nossos votos, nossas escolhas, nossos silêncios?
Ricardo, Jackson e Patrick deram seu trabalho, seu suor, sua dignidade. Receberam balas. Suas famílias receberam uma dor que não cabe em palavras. E nós? O que daremos em resposta?
Eu aprendi, na fé e na vida, que fazer o bem não pode ser seletivo. Não é apenas para quem pensa como nós ou nos beneficia diretamente. É, sobretudo, para quem tem fome, para quem sofre, para quem perdeu a esperança e já não acredita que o amanhã pode ser diferente.
Neste fim de ano, eu desejo que a passagem do tempo não seja apenas uma troca de calendário, mas o início de uma nova postura ética, política e humana. Que 2026 seja realmente novo — não no número, mas na consciência.
Porque as balas que atiramos não voltam.
Mas as sementes que plantamos, essas ainda podem germinar em paz.
Feliz 2026. Que seja o ano em que, finalmente, possamos responder à pergunta de John Lennon sem vergonha: fizemos o que era preciso. Escolhemos a paz.
Em memória de Ricardo Antônio da Silva Souza, Jackson Santos Macedo, Patrick Vinícius — e de tantos outros cujos nomes não estão escritos aqui, mas cujas vidas importam infinitamente.




