Política e Resenha

ARTIGO – Quando Governar Vira Sobrevivência: a Cooptação Silenciosa dos Prefeitos de Oposição

 

 

 

 

Padre Carlos

Há decisões políticas que não nascem da convicção, mas do cansaço. Outras brotam do medo. E algumas são paridas no desespero absoluto de quem governa cidades estranguladas pela violência, pela falta de recursos e pela pressão cotidiana de uma população que cobra soluções imediatas. A notícia de que Zé Cocá deve trocar o PP pelo PSB e aderir formalmente ao grupo que apoia o governador da Bahia não é um fato isolado. É um sinal de alerta. Um retrato cru da forma como a política estadual tem operado sua silenciosa, porém eficaz, máquina de cooptação.

Jequié, cidade governada por Cocá, figura hoje nos rankings mais sombrios da segurança pública nacional. Violência urbana, sensação de abandono, medo cotidiano. Governar um município nessas condições é caminhar sobre escombros. Não há discurso ideológico que sustente uma gestão quando faltam viaturas, investimentos, presença do Estado e respostas concretas para uma população acuada. Diante disso, a pergunta incômoda se impõe: até que ponto um prefeito pode manter suas convicções políticas quando a sobrevivência da cidade parece depender do alinhamento com o poder estadual?

Segundo comentários, a máquina do poder não opera apenas com promessas. Ela se alimenta da necessidade. Trabalha com o desespero. Age onde a carência é maior. Prefeitos de pequenas e médias cidades da Bahia sabem disso. Sem alinhamento político estadual e federal, as portas se fecham, os convênios emperram, os recursos atrasam, os projetos não andam. O sistema transforma gestores eleitos pelo voto popular em reféns de uma engrenagem que não tolera dissidência prolongada.

Nesse contexto, a fala da deputada Lídice da Mata é reveladora. Ao narrar as conversas, os desencontros, as articulações e os contatos com intermediários, ela expõe, ainda que involuntariamente, o funcionamento interno desse processo. Nada é abrupto. Nada é público de imediato. Tudo se dá em reuniões, viagens, agendas cruzadas, telefonemas estratégicos. Deputados do PP migram para o PSB, prefeitos seguem o mesmo caminho, e o movimento é apresentado como algo quase natural, inevitável, pragmático.

Mas o pragmatismo, quando se torna regra absoluta, corrói a democracia. A oposição deixa de existir não porque perdeu o debate público, mas porque foi asfixiada pela lógica do poder concentrado. A política deixa de ser espaço de ideias e passa a ser território de sobrevivência administrativa. Prefeitos não abandonam seus ideais por convicção súbita; fazem isso porque o sistema lhes apresenta uma escolha cruel: alinhar-se ou assistir à própria cidade definhar.

O caso de Jequié é emblemático, mas não é único. Ele simboliza uma Bahia onde o alinhamento político se tornou condição quase obrigatória para governar. Onde a autonomia municipal é frágil. Onde a promessa federativa esbarra na realidade de um Estado forte e municípios dependentes. O resultado é um mapa político cada vez mais homogêneo, menos plural, menos crítico.

A pergunta que fica não é se Zé Cocá fez a escolha certa ou errada. A pergunta verdadeira é outra: que tipo de sistema político obriga gestores eleitos a escolher entre suas convicções e o bem-estar mínimo de sua população? Quando governar vira um ato de rendição, algo está profundamente errado. E enquanto aceitarmos essa engrenagem como normal, a democracia continuará sendo administrada pelo medo, pela necessidade e pela lógica implacável do poder.