Padre Carlos
Durante entrevista a uma rádio local, Wagner Alves falou sem rodeios. E, às vezes, é disso que uma cidade precisa: menos diplomacia e mais verdade. Ele expôs aquilo que o cidadão comum já sente no volante, no amortecedor estourado, no pneu rasgado, no susto do desnível inesperado — as intervenções da Embasa têm deixado marcas profundas nas ruas de Vitória da Conquista.
O problema não é a obra em si. Saneamento é necessidade básica. Água tratada e rede de esgoto são pilares da saúde pública, desenvolvimento urbano e qualidade de vida. O problema está no depois. No remendo malfeito. Na cicatriz aberta sobre o asfalto novo. Na sensação de que se constrói de manhã e se destrói à tarde.
Quantas vezes já vimos ruas recém-asfaltadas serem cortadas dias depois? Quantas vezes a população celebrou o asfalto novo, apenas para assistir, impotente, ao corte transversal que atravessa a via como se planejamento fosse um detalhe secundário? Não se trata de um episódio isolado. Trata-se de um padrão recorrente.
E o que nasce desses cortes mal recompostos? Desníveis que viram solavancos. Solavancos que viram quebra-molas improvisados. Quebra-molas improvisados que, com o tempo, se transformam em crateras urbanas. O ciclo do desperdício.
Enquanto isso, a culpa recai quase automaticamente sobre a Prefeitura. O cidadão não quer saber quem cortou, quem asfaltou, quem remendou. Ele quer a rua transitável. Quer respeito ao dinheiro público. Quer gestão eficiente. E é aí que mora o drama político e administrativo: a percepção pública não distingue responsabilidades técnicas.
Wagner Alves toca numa ferida institucional quando fala em fiscalização e atuação firme de agência reguladora. Porque o que está em jogo não é apenas um buraco na rua. É governança. É planejamento urbano. É responsabilidade contratual. É transparência na aplicação de recursos públicos.
Quando uma empresa executa uma intervenção e não recompõe a via com padrão de qualidade adequado, quem paga é a população — paga duas vezes. Primeiro com o imposto que financia o asfalto. Depois com o prejuízo mecânico e o risco de acidente.
A cidade não pode viver refém de um modelo onde obras se sobrepõem sem diálogo técnico. Planejamento urbano exige cronograma integrado. Exige comunicação entre Prefeitura e concessionária. Exige critérios claros de recomposição asfáltica. Exige fiscalização contínua.
E aqui não se trata de confronto político, mas de maturidade administrativa. Se a Embasa precisa intervir, que o faça. Mas que recupere com excelência. Que entregue a via em condição igual ou superior à anterior. Que haja controle técnico, penalidades contratuais e transparência.
Vitória da Conquista não merece o improviso. Merece planejamento estratégico, infraestrutura de qualidade, responsabilidade fiscal e respeito ao cidadão.
Porque cada buraco não é apenas uma falha no asfalto. É uma rachadura na confiança pública.
E confiança, quando se perde, não se remenda com piche.





