Política e Resenha

ARTIGO – Quando o País Vira Chacota Oficial e o Povo Continua Sendo o Bobo da Corte

 

 

(Padre Carlos)

Vamos falar sério — ou melhor, vamos falar com o máximo de seriedade que este país permite, já que aqui a realidade insiste em competir com a comédia pastelão. A decisão do Contran de extinguir a obrigatoriedade das autoescolas para obtenção da CNH foi recebida como um terremoto, e não porque tocou na “segurança do trânsito”, como alguns discursos patrióticos fingem defender. Não. O abalo sísmico aconteceu porque o país cutucou um vespeiro poderoso: um sistema que, há décadas, transforma habilitação em máquina de moer dinheiro do povo e alimentar os bolsos dos mesmos de sempre.

Quando o Contran anunciou a novidade, deu para ouvir o barulho de talheres caindo nos salões onde se reúnem os donos das verdadeiras instituições nacionais: os grupos econômicos que vivem de cada taxa, cada exame, cada burocracia disfarçada de “necessidade técnica”. Foi um susto coletivo digno de novela: “Como ousam mexer no nosso filé-mignon?”.

Mas claro: neste país, onde até a sombra tem dono, ninguém larga o osso. Nem que o povo esteja com fome.

E aí, como previsto, entra em cena o Congresso — essa espécie de teatro romano onde os gladiadores não lutam com espadas, mas com emendas, lobbies e discursos indignados patrocinados. Liderado pelo sempre solícito Coronel Meira, um grupo de deputados correu para protocolar um projeto que devolve às autoescolas seu trono dourado. A justificativa? Segurança. Responsabilidade. Boa formação no trânsito. Aham. Conta outra.

É quase comovente perceber como nossos parlamentares se mobilizam com rapidez fulminante quando se trata de defender interesses… dos outros. O povo? Esse continua vendo a banda passar, pagando taxas que nem sabe para onde vão e sendo informado, com ar professoral, que é “para o seu próprio bem”.

O Brasil não é para amadores. E a prova está aí: enquanto milhões sonham em tirar a CNH sem vender um rim para pagar aulas caríssimas, um sistema inteiro se levanta para garantir que nada, absolutamente nada, mude. Porque mudança, neste país, só interessa quando não mexe com quem manda.

Há quem diga que vivemos em uma democracia vibrante. Eu diria que vivemos em uma comédia de erros — com o detalhe cruel de que o público paga ingresso e ainda leva bronca se reclamar do espetáculo.

A verdade é simples: a extinção da obrigatoriedade das autoescolas nunca foi sobre facilitar a vida do cidadão; sempre foi sobre desafiar um feudo. E feudos, como sabemos desde a Idade Média, só caem quando alguém puxa o tapete com força suficiente. Não foi o caso.

Agora, com o lobby afiando as unhas e os “representantes do povo” correndo para restaurar o “equilíbrio da ordem”, fica claro que a elite que vive de drenar recursos do cidadão segue ativa, forte e barulhenta. E, como sempre, contando com Brasília para guardar o osso com carinho.

Enquanto isso, o Brasil segue seu curso: uma mistura de farsa, tragédia e improviso, onde decisões que poderiam aliviar o bolso do povo se transformam, em poucos dias, em contra-ataques que reafirmam quem realmente manda.

No fim das contas, a pergunta que fica é: quem é que, nesse país, ainda acredita que alguma decisão feita para beneficiar o povo sobreviverá mais de 72 horas sem ser derrubada por algum grupo “preocupado com a nação”?

Pois é. Aqui, até quando o Estado tenta acertar, o sistema dá um jeito de puxar o freio de mão. E ainda cobra multa.