Às vezes, é só um gesto automático. Ligamos o rádio do carro como quem espanta o silêncio da manhã. A cidade já se agita, as crianças conversam no banco de trás, os faróis se sucedem em seu balé apressado. E então, sem que ninguém espere, começa a tocar uma música esquecida – daquelas que o tempo não matou, só escondeu.
Alguém comenta qualquer coisa no banco do carona, mas já não ouvimos. A mente fica, o corpo dirige, mas a alma… a alma volta no tempo. E tudo o que estava guardado com tanto esforço, trancado a sete chaves num canto discreto do peito, resolve sair para dançar ao som daquela canção.
Como esconder dos meninos esse tremor súbito? Como disfarçar que uma lágrima ameaça brotar, mesmo quando fingimos coçar os olhos por causa da claridade? Como explicar que aquela música, tão comum para eles, era nossa oração silenciosa numa época em que o medo morava nas esquinas e o futuro era uma incógnita entre grades e fuzis?
Nós éramos tão jovens, tão certos do que era justo. Marchávamos nas passeatas com cartazes e esperança, mesmo sabendo que os olhos da repressão nos miravam com frieza. Ela estava lá, a militante de olhar firme e mãos pequenas. Acreditava em mudança com uma fé que hoje raramente se vê. Ele também estava, aquele companheiro que sabia fazer poesia com panfletos e resistência com afeto.

Mas o tempo é cruel com os que amam com intensidade. Ele se foi antes do fim da luta. E ela… nunca mais foi a mesma depois daquela madrugada.
E agora, tudo volta por causa de um refrão qualquer. A cidade não nota. O trânsito avança. Os filhos perguntam sobre o lanche. Mas cá dentro, um universo inteiro se reanima. Aquele cheiro de jornal rodando clandestino, o sabor do café amargo nas reuniões secretas, o frio na espinha ao ver uma viatura desacelerar. E o abraço apressado antes da última assembleia. Onde estarão agora?
A memória afetiva não pede licença. Ela invade, reencena, reacende. E mesmo que o tempo cronológico diga que se passaram décadas, há algo em nós que permanece lá – vivendo tudo de novo, como se não tivesse havido intervalo.
Vivemos de lembranças que preferimos não nomear. Não por vergonha, mas por pudor. Porque há dores que não se explicam, e saudades que só a música sabe traduzir.
E então seguimos. Ligamos o rádio, ajustamos o volume, enxugamos o canto do olho. E seguimos. Com o coração um pouco mais apertado, mas também mais vivo. Porque lembrar, mesmo que doa, é prova de que sentimos profundamente. De que existimos por inteiro.
E talvez, só talvez, isso seja o que ainda nos mantém humanos.





