Política e Resenha

ARTIGO – Quando o privilégio veste a miséria: a vergonha de Cordeiros

 

 

(Padre Carlos)

Há crimes que não se cometem com armas, mas com o coração endurecido pela ganância. Crimes silenciosos, disfarçados de esperteza, mas que ferem profundamente a dignidade do povo pobre. O caso da primeira-dama de Cordeiros, Márcia Novais, esposa do prefeito Devani Pereira, é um desses episódios que revoltam, entristecem e envergonham — porque expõem, em sua forma mais nua, o abismo moral que ainda separa quem tem poder de quem tem fome.

Márcia recebia R$ 800 do Bolsa Família — um programa criado para amparar mães que lutam diariamente pela sobrevivência dos filhos, que acordam antes do sol e voltam para casa depois dele, que fazem do pouco um gesto de amor e resistência. Recebia o benefício mesmo sendo esposa de um prefeito que ganha R$ 15 mil por mês. O mesmo prefeito que declarou à Justiça Eleitoral R$ 1,28 milhão em bens, entre fazendas, gado e dinheiro vivo. Enquanto isso, mulheres pobres da cidade seguem enfrentando filas para garantir o pão de cada dia.

Não se trata de um deslize. Trata-se de um escárnio público. Um tapa na cara de cada mãe que depende do Bolsa Família para comprar o leite do filho, de cada pai desempregado que se humilha no cadastro do CadÚnico. Trata-se da forma mais baixa de corrupção: a que rouba dos pobres em nome do conforto dos ricos.

Quando um programa como o Bolsa Família é usado por quem não precisa, não é apenas o erário que sofre — é o próprio espírito de solidariedade nacional que se fere. Porque o Bolsa Família não é esmola: é uma política de reparação social, uma tentativa concreta de corrigir as desigualdades históricas de um país onde a elite sempre acreditou que tudo lhe pertence.

O caso da primeira-dama de Cordeiros não é apenas ilegal. É imoral. É inaceitável. E precisa ser lembrado como um alerta: enquanto o poder público for tratado como um negócio familiar, enquanto o dinheiro do povo continuar alimentando privilégios, o Brasil continuará sendo um país onde os pobres pagam pelos pecados dos ricos.

A atitude de Márcia Novais não envergonha só Cordeiros — envergonha toda a Bahia, um estado que conhece a dor da seca, o preço da fome e a força do trabalho honesto. Que país é este onde a esposa de um prefeito, cercada de terras e gado, se acha no direito de disputar migalhas com quem nada tem?

É por isso que o pente-fino do Governo Federal precisa ser celebrado. Porque cada fraude desmascarada é uma vitória da verdade sobre a mentira, da justiça sobre o cinismo, da decência sobre a hipocrisia.

Que o caso de Cordeiros sirva de exemplo. Que desperte em cada cidadão a indignação necessária para defender o que é do povo e exigir reparação moral e política. Porque quem rouba do pobre não enriquece — empobrece a própria alma.

E a vergonha que hoje recai sobre o nome de Cordeiros não nasceu do acaso. Nasceu daquilo que sempre destrói as nações: a soberba dos que acreditam estar acima da lei e do povo.