
Padre Carlos
Você já sentiu vergonha alheia diante da televisão?
Eu senti.
Não pela avenida. Não pelo samba. Não pelo povo que cantava com os olhos marejados de alegria. Senti vergonha pela forma como a transmissão tentou enquadrar o Carnaval como se fosse um interrogatório, como se o desfile das escolas de samba precisasse de autorização ideológica para existir.
Há algo de profundamente revelador quando uma emissora que se apresenta como guardiã da democracia decide tratar a homenagem de uma escola de samba como suspeita. Como se contar uma história fosse subversão. Como se celebrar um presidente eleito fosse um risco institucional.
E aqui precisamos falar com serenidade — mas com firmeza.
O Carnaval brasileiro sempre foi território de narrativa popular. Sempre. Desde os enredos sobre escravidão, ditadura militar, resistência cultural, religiosidade afro-brasileira, figuras históricas e personagens controversos. A avenida é palco de memória, crítica social, ironia e celebração. É cultura viva. É identidade nacional.
Quando uma escola decide reverenciar a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva, ela não está cometendo um delito simbólico. Está exercendo o direito artístico de contar uma história que marcou o país. Goste-se ou não da figura política, ele foi eleito pelo voto popular. Esse detalhe é fundamental. Democracia pressupõe escolha — inclusive a escolha estética e cultural.
O problema não foi o enredo.
O problema foi o tom.
A TV Globo abriu a transmissão como quem abre um inquérito. A narrativa insinuava excessos, quase sugeria irregularidade moral, como se a homenagem fosse propaganda indevida. Mas desde quando emoção popular precisa de alvará editorial? Desde quando o samba se curva à conveniência de quem transmite?
Aqui reside o ponto de virada desta reflexão.
Não estamos discutindo Lula. Estamos discutindo liberdade cultural. Estamos discutindo o direito do povo cantar sua própria escolha sem ser tratado como massa manipulada. O enquadramento midiático importa. Ele molda percepções. Ele constrói suspeitas onde talvez só exista celebração.
Framing — como ensinam os estudiosos da comunicação — não é neutro. A forma como se apresenta um fato altera a interpretação do público. Quando se coloca a homenagem sob o signo da dúvida, transfere-se à cultura popular o peso de uma justificativa. E cultura não deve justificar-se por existir.
O povo na arquibancada não parecia constrangido. Parecia orgulhoso. Cantava alto. Vibrava. E ali havia algo que nenhuma edição consegue cortar: autenticidade.
O Carnaval é patrimônio cultural. É indústria criativa. Move bilhões na economia, gera empregos, projeta a imagem do Brasil no mundo. Mas, acima de tudo, é expressão popular. É memória coletiva coreografada. Não é tribunal.
Se amanhã uma escola decidir homenagear outro presidente, outro líder, outra personalidade controversa — que o faça. A avenida não é extensão de redação jornalística. É território simbólico da nação.
E talvez o que mais incomode seja exatamente isso:
o povo cantando em voz alta a própria escolha.
Sem pedir licença.
Sem pedir bênção.
Sem pedir autorização editorial.
Democracia não é apenas o direito de votar. É o direito de celebrar aquilo que se escolheu. É o direito de transformar política em cultura, cultura em arte, arte em samba.
O que me causou vergonha não foi o desfile. Foi a tentativa sutil de enquadrar o afeto popular como problema. Quando a imprensa deixa de narrar para julgar, algo se desloca. E quando o Carnaval passa a ser tratado como risco, a pergunta que fica é incômoda:
Quem, afinal, tem medo do samba?




