Política e Resenha

ARTIGO – Quando o Tiro Sai Pela Culatra: Trump, o Pix e o Bolsonarismo em Frangalhos

 

 

(Padre Carlos)

Donald Trump, esse mestre do improviso diplomático, resolveu estender sua “grandeza” até o Brasil — país que, ironicamente, não pertence aos Estados Unidos, embora alguns ainda confundam a bandeira nacional com a do Texas. Com sua conhecida delicadeza geopolítica, Trump impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e — pasmem! — abriu uma investigação comercial contra o Pix e a rua 25 de Março. Sim, caro leitor, a 25. A rua. Com barraquinhas, ambulantes, sacoleiros e uma pátria informal que sobrevive à base do “dinheiro na mão e mercadoria no carrinho”.

Ao que tudo indica, Trump, na ânsia de dar uma força a seu velho amigo Jair Bolsonaro — aquele que bate continência até para o segurança da Casa Branca — acabou jogando uma granada no colo do ex-presidente. E não foi daquelas de efeito moral, não. Foi uma de fragmentação política, com estilhaços ideológicos que já estão atingindo aliados históricos e, veja só, até Hamilton Mourão resolveu tirar o capacete e sair da trincheira.

O Pix, esse milagre tecnológico tupiniquim, virou alvo do trumpismo. Um sistema bancário gratuito, eficaz, popular, transversal, moderno — ou seja, tudo o que o bolsonarismo odeia. E atacar o Pix no Brasil é mais ou menos como tentar proibir o feijão com arroz ou colocar senha para assistir ao futebol de domingo. É pedir para ser vaiado até por quem ainda tem o “mito” no adesivo do carro.

Mais genial ainda foi escolher a 25 de Março como símbolo de “práticas comerciais suspeitas”. Aparentemente, o gabinete de Trump confundiu a economia informal com uma célula de espionagem chinesa. Fosse por ignorância, seria apenas cômico. Mas como tudo indica um cálculo político de apoio a Bolsonaro, torna-se tragicômico — porque o resultado é o oposto: fortaleceu Lula.

Sim, Lula, aquele mesmo que em outros tempos era acusado de entregar o país ao “comunismo global”, hoje empunha a bandeira da soberania nacional contra o império americano. A ironia não poderia ser mais perfeita. De líder sindical perseguido pelo sistema a defensor do Pix contra o império digital de Washington. O Brasil é mesmo um país que se recusa a ser coerente.

O Palácio do Planalto reagiu com a astúcia de quem sabe farejar oportunidade no meio da crise. Lançou campanha com o slogan “O Pix é do Brasil e dos brasileiros”, convocando até o caboclo do interior e o CEO da Faria Lima para se unirem contra a ameaça externa. Nacionalismo na veia, com direito a trilha sonora de Alceu Valença e memes de Zé Gotinha segurando um QR Code.

Enquanto isso, no campo adversário, o centrão — essa geleia real da política brasileira — começa a se afastar do ex-capitão. A última coisa que querem é apoiar alguém que está sendo chamado de entreguista até por setores que ainda cultivam o “kit verde e amarelo” no armário.

Tarcísio de Freitas, sempre em busca de equilíbrio entre a devoção bolsonarista e a realidade paulista, chegou a aplaudir Trump em um primeiro momento. Mas, percebendo a tempestade midiática que se armava, tratou de ajustar o discurso. Ninguém quer ser lembrado como o gestor que viu o comércio popular de São Paulo ser atacado por um americano de gravata vermelha.

Analistas econômicos, até os mais ortodoxos, são unânimes: as tarifas são tecnicamente absurdas. O Pix é referência mundial, e sua eficácia já é estudada por sistemas bancários da Europa e da Ásia. Trata-se de uma tentativa política, mal calculada, de interferência externa — daquelas que os bolsonaristas juravam combater com a Bíblia numa mão e a Constituição na outra.

Resultado? O que era para ser uma ajuda virou um presente de Natal para Lula, entregue com laço e tudo. O bolsonarismo, que adorava posar de defensor da pátria, agora se vê no papel de cúmplice involuntário de uma potência estrangeira que ataca símbolos nacionais. O povo percebe. E cobra.

Trump, com sua habitual sutileza de elefante em loja de cristais, ofereceu a Lula o que nem o marketing político poderia prever: uma causa nobre, simples, popular e, sobretudo, nacionalista.

Se continuar assim, é capaz de o próximo slogan do governo ser:
“Pix é nosso, 25 também. E o resto, Trump que lute.”