Política e Resenha

ARTIGO – Quando os Lobos Uivam na Política

 

 

Padre Carlos

 

Fora do Carnaval por questões de saúde, o senador Otto Alencar surgiu nas redes sociais neste sábado com um gesto simples, mas carregado de simbolismo: tranquilizou seguidores, afirmou estar bem e revelou que, enquanto o Brasil vibra ao som dos tambores e das marchinhas, ele tem aproveitado o recolhimento para ler.

Não é um detalhe irrelevante.

Num país onde o barulho frequentemente substitui o argumento, o silêncio de quem lê pode ser mais eloquente do que mil discursos inflamados. E foi nesse contexto que o senador compartilhou uma frase que ecoou nos bastidores da política baiana e nacional:

“Quanto mais os lobos urram, mais eles têm algo a encobrir.”

A metáfora é forte. Lobos urrando. Ruído na noite. A tentativa de intimidar pelo som, não pela razão. Em tempos de polarização política, ataques pessoais e narrativas construídas para destruir reputações, a frase funciona como um alerta moral e estratégico.

Vivemos uma era em que o debate de ideias foi, muitas vezes, sequestrado pelo espetáculo da agressividade. O contraditório, essencial à democracia, cede espaço à caricatura. O adversário é transformado em inimigo. A crítica vira ofensa. E o argumento, substituído por insinuações.

Quando alguém grita demais, talvez esteja tentando abafar algo.

A reflexão de Otto não é apenas uma defesa pessoal — embora também possa ser. É um chamado à responsabilidade pública. A ética na política não é um adorno retórico; é o que sustenta a credibilidade institucional. O respeito à democracia não pode ser seletivo. A liberdade não pode ser bandeira apenas quando convém.

Há algo profundamente pedagógico na cena: enquanto a folia ocupa as ruas, um senador se recolhe, cuida da saúde e lê. A imagem é quase simbólica. Num Brasil marcado por crises sucessivas — econômicas, institucionais e morais — a política precisa mais de reflexão do que de gritaria.

E aqui cabe uma pergunta que incomoda: quem tem medo do debate sério?

O político que aposta na construção de políticas públicas sólidas não teme o confronto de ideias. Pelo contrário, cresce com ele. Mas aquele que vive de ataques pessoais, de insinuações e de desinformação, precisa do barulho constante para sobreviver. O ruído é sua cortina de fumaça.

A política baiana, historicamente marcada por lideranças fortes e embates intensos, atravessa um momento delicado. A nacional, então, vive sob permanente tensão. Nesse cenário, a frase compartilhada por Otto ganha contornos mais amplos: ela é uma advertência contra a banalização do discurso agressivo e contra o esvaziamento do debate democrático.

Não se trata de romantizar a política. O embate é natural. A divergência é saudável. O contraditório é indispensável. Mas há uma linha tênue entre a crítica legítima e o ataque destrutivo. Quando essa linha é ultrapassada, quem perde não é apenas o político alvo da agressão — é a própria democracia.

A saúde fragilizada que o afastou do Carnaval pode ter proporcionado ao senador algo raro na vida pública: tempo para pensar. E pensar, em política, é um ato revolucionário.

Talvez devêssemos todos fazer o mesmo.

Em vez de replicar automaticamente a última polêmica, poderíamos perguntar: qual é a ideia por trás do grito? O que está sendo ocultado pelo excesso de ruído? Quem ganha quando a discussão se torna um ringue?

O Brasil precisa urgentemente recuperar o valor do argumento. Precisamos de mais propostas e menos adjetivos. Mais dados e menos insinuações. Mais compromisso com a verdade e menos paixão cega por narrativas convenientes.

Se a frase do senador provocar esse tipo de reflexão, já terá cumprido um papel relevante no debate público.

Porque, no fim das contas, a democracia não se fortalece no grito — mas na coragem de sustentar ideias à luz do dia.

E quando os lobos urram demais, talvez seja hora de acender a luz.