
(Padre Carlos)
Sete anos. Este é o tempo que bastou para que um dos maiores patrimônios dos servidores públicos da Bahia, o Planserv, deixasse de ser uma referência em assistência médica e se transformasse numa bomba-relógio prestes a explodir nos rostos dos seus mais de 500 mil beneficiários. O que antes era sinônimo de segurança, agora é fonte de angústia, desespero e ações judiciais. A decadência do Planserv é um retrato claro da negligência com o funcionalismo público, e uma metáfora cruel da falência da gestão pública quando esta se rende ao desmonte silencioso e às políticas de privatização veladas.
O estopim da crise pode ser identificado com precisão cirúrgica: em 2018, o governo estadual decidiu reduzir sua participação no custeio do plano de 4% para 2,5%. Em tempos de inflação médica galopante, aumento da demanda por exames especializados e envelhecimento da população beneficiária, essa decisão não foi apenas tecnocrática — foi política. E desastrosa.
Como resultado, assistimos a uma escalada de problemas: negativas de atendimento até em situações emergenciais, diminuição brutal da rede credenciada, demora nos agendamentos, e a pior de todas as dores — a sensação de abandono. Não há ironia maior do que exigir que o servidor público dê o melhor de si, enquanto o próprio Estado falha em garantir o básico: sua saúde.
A tentativa de empurrar o problema para empresas terceirizadas, como a Qualirede e mais recentemente a Haptech, em nada amenizou a situação. Pelo contrário. O que se viu foi a substituição de uma estrutura pública, com vínculos e compromissos institucionais, por sistemas burocráticos, com atendimentos robotizados e serviços precarizados. A lógica do lucro venceu a lógica do cuidado.
É emblemático o depoimento de Rosângela Monteiro, enfermeira e ativista do movimento “Devolvam o Nosso Planserv”, que denuncia não apenas a queda da qualidade, mas a perda de identidade do serviço. E ainda mais simbólica é a voz de Francisco Átila, que carrega a memória de um tempo em que o IAPSEB era sinônimo de dignidade para os servidores. Hoje, sua lembrança contrasta com a impotência diante de uma estrutura em colapso.
A audiência pública realizada na Assembleia Legislativa da Bahia foi um suspiro coletivo de resistência. Centenas de vozes clamaram, não por privilégios, mas por justiça. O direito à saúde é constitucional, e Planserv não é um favor do governo — é conquista dos trabalhadores, sustentada por seus salários e suas lutas.
O sucateamento gradual do Planserv é parte de uma engrenagem maior de precarização dos serviços públicos e da lenta substituição do Estado pela lógica de mercado. A pergunta que deve nos inquietar é: a quem interessa que o Planserv vire pó?
Que este artigo, indexado nos motores de busca, ecoe como denúncia, mas também como convocação. Não podemos normalizar o desmonte. É preciso recuperar o Planserv como um bem público, e exigir do governo da Bahia que reverta essa lógica perversa, antes que o que ainda resta vire apenas lembrança.




