
(Padre Carlos)
Ontem, 10 de setembro, a Câmara Municipal de Vitória da Conquista abriu espaço para um tema que ultrapassa as fronteiras do debate político: o Setembro Amarelo. A sessão especial, proposta pelos vereadores Fernando Jacaré (PT) e Luciano Gomes (PCdoB), mostrou que é possível transformar o plenário em um ambiente de diálogo sobre vida, saúde mental e prevenção ao suicídio.
Não se tratou apenas de mais uma solenidade no calendário oficial, mas de um chamado à responsabilidade coletiva. O suicídio, muitas vezes envolto em silêncio e preconceito, vem crescendo de forma alarmante. Dados do Ministério da Saúde indicam que, entre 2016 e 2021, houve aumento de quase 50% nas mortes por suicídio entre adolescentes de 15 a 19 anos e de 45% entre jovens de 10 a 14 anos. São números que falam de vidas interrompidas, famílias devastadas e de uma sociedade que ainda precisa aprender a cuidar melhor de seus filhos.
A sessão de ontem foi um gesto necessário. Reunir especialistas, representantes da sociedade civil e autoridades locais para discutir estratégias de acolhimento e prevenção é reconhecer que o tema deve ser tratado como prioridade de saúde pública. Campanhas e atos simbólicos têm seu valor, mas o que se espera, a partir desse debate, é o fortalecimento da rede pública de saúde mental, a ampliação do acesso ao atendimento psiquiátrico e multiprofissional e a criação de espaços de escuta nas escolas e comunidades.
O Setembro Amarelo, nascido em 1994, nos Estados Unidos, a partir da história de Mike Emme e seu Mustang amarelo, encontrou no Brasil um caminho consistente desde 2014, com a liderança da Associação Brasileira de Psiquiatria e do Conselho Federal de Medicina. Mas a campanha só ganha sentido quando sai do papel e alcança, de forma prática, aqueles que precisam.
O lema “Se precisar, peça ajuda” precisa ser levado a sério. Isso significa garantir que quem procura apoio encontre portas abertas, profissionais preparados e um acolhimento digno. Porque não basta estimular o pedido de socorro se o Estado não oferece a resposta adequada.
Ontem, a Câmara de Vitória da Conquista deu um passo importante. Mas o desafio permanece: transformar esse gesto em compromisso permanente. É preciso que todos nós — sociedade, famílias, escolas e poder público — assumamos a missão de quebrar o silêncio e abrir caminhos de vida para quem se encontra na escuridão da dor.
O suicídio não é destino inevitável. O silêncio, sim, pode ser mortal. Que o diálogo iniciado ontem seja o início de um compromisso contínuo com a vida.




