Política e Resenha

ARTIGO – “Só Sei Que Foi Assim: A Trama do Preconceito Contra o Povo do Nordeste”

 

(Padre Carlos)

O Brasil é um país de contrastes não apenas geográficos, mas emocionais, afetivos e morais. Um país que canta o forró nas festas juninas, fotografa os coqueiros nas praias de Porto de Galinhas, degusta a tapioca e o acarajé com deslumbramento turístico — mas que, na fila do aeroporto ou no balcão da pousada, desdenha do sotaque, do jeito, da pele e do “andar” do nordestino. Há algo de cruel nesse amor hipócrita: o Brasil que adora o Nordeste detesta, muitas vezes, o nordestino.

E isso se revela, sem disfarce, no comportamento de certos turistas do Sul e Sudeste, sobretudo os mais conservadores. Eles chegam como quem coloniza, não como quem visita. Querem que a comida seja menos temperada, que o atendimento seja mais submisso, que o guia turístico fale “sem esse sotaque carregado”. Acham graça das expressões locais, mas não aprendem uma sequer. Exigem conforto, mas desprezam a cultura viva que torna o Nordeste uma das regiões mais autênticas do mundo. E tudo isso com um verniz de civilidade — porque, afinal, eles dizem: “Eu amo o Nordeste”. Mas amar o Nordeste sem amar o nordestino é como amar a casa sem respeitar quem a construiu.

Essa trama de preconceito, muitas vezes velada, se desdobra em formas sutis e outras escancaradas. O nordestino é retratado como folclore quando serve à narrativa turística, mas como incômodo quando exerce sua cidadania. Nas eleições, quando o povo do Nordeste vota em massa num projeto progressista, surgem os discursos de ódio: “Bolsa-família compra voto”, “Nordeste atrasa o Brasil”, “Eles deviam aprender a votar”. Em nenhuma outra ocasião o preconceito aflora tanto quanto quando o nordestino se torna sujeito político.

Essa narrativa não é nova. Está entranhada na forma como a elite do centro-sul construiu sua identidade: negando a riqueza do outro. Os meios de comunicação, por décadas, reforçaram esse estereótipo — ou ignorando o Nordeste ou caricaturando-o. O Brasil que se vê na televisão é um Brasil sulista, branco, urbano, cosmopolita. O Nordeste aparece como exótico, nunca como protagonista.

Mas “só sei que foi assim”, parafraseando Chicó, de O Auto da Compadecida. Foi assim que o preconceito se instalou: disfarçado de civilidade, revestido de ignorância histórica, reproduzido por gerações que não aprendem sobre Canudos, Palmares, Lampião ou a luta dos sertanejos pela sobrevivência. Foi assim que se consolidou um país que ama o chão nordestino, mas teme sua voz.

A pergunta que fica é: até quando o Nordeste será visto como destino, e não como origem? Até quando o Brasil se esconderá desse espelho desconfortável, onde o preconceito se mascara de preferência turística?

Valorizar o Nordeste não é apenas consumir sua cultura, é respeitar seu povo. É entender que por trás de cada jangadeiro, de cada lavrador, de cada mulher de feira há uma história de resistência, de sabedoria e de dignidade que o Brasil tanto precisa aprender a honrar.