Política e Resenha

ARTIGO – “Sou Muito Amada: Quando o Amor Antecede o Diagnóstico”

 

 

Padre Carlos

A primeira frase dita diante de um diagnóstico de câncer não foi medo, nem revolta, nem desespero. Foi uma constatação simples, profunda e revolucionária: sou muito amada. Em outubro, a descoberta de um tumor maligno na bexiga trouxe o impacto que qualquer pessoa conhece — o chão some, o futuro silencia, o corpo passa a ser interrogado. Mas, desde o primeiro instante, algo maior já estava presente: uma rede de amor viva, concreta e atuante.

A cirurgia veio em novembro, seguida da biópsia e, com ela, a notícia que trouxe alívio e responsabilidade. Tumor em estágio inicial, sem infiltração, mas um carcinoma de alto grau. O protocolo foi claro: quimioterapia aplicada diretamente na bexiga. Seis semanas consecutivas, internação semanal, procedimento incômodo, reações físicas e emocionais. Nada romantizado. Tudo enfrentado.

E foi exatamente aí que o amor deixou de ser palavra abstrata e virou presença real. Companhia constante, cafés, mimos, telefonemas, mensagens, grupos de oração, visitas, passeios, conversas longas e silêncios respeitosos. Não houve solidão. Em nenhum momento. Houve escuta, acolhimento, partilha dos medos e fortalecimento mútuo. O corpo tratava o câncer; o afeto tratava a alma.

Os meses passaram rápidos. A cirurgia superada, a fase inicial da quimioterapia concluída e, segundo a equipe de oncologia, uma resposta melhor do que o esperado. Ainda há caminho a cumprir: aplicações mensais durante um ano e acompanhamento rigoroso por cinco anos. É o preço da vigilância, da ciência, da responsabilidade com a própria vida.

Aqui emerge uma dimensão que não pode ser silenciada: o acesso à saúde salva vidas. O diagnóstico precoce só foi possível porque exames anuais são feitos, porque há acesso à tecnologia de imagem, porque há acompanhamento médico de qualidade. Isso não pode ser privilégio. Precisa ser política pública. Precisa ser direito universal. Cuidar de pacientes oncológicos com dignidade não é favor — é obrigação do Estado.

O amor, porém, continua sendo o fio invisível que sustenta tudo. A família, descrita como algo que talvez nem exista mais no mundo, os amigos reunidos ao longo da vida como um verdadeiro tesouro, e a solidariedade comovente dos Deputados do PCdoB, com quem trabalho diariamente. Tudo isso constrói um chão firme quando o corpo vacila.

Há, acima de tudo, uma espiritualidade que não foge da realidade. Uma gratidão profunda a Deus, não como anestesia da dor, mas como força que atravessa o sofrimento e o transforma em consciência, responsabilidade e compromisso com a vida.

Este não é um relato de doença. É um manifesto sobre o poder do cuidado, da amizade, da saúde pública, da fé e do amor organizado. Porque, no fim, antes mesmo do diagnóstico, a verdade já estava dita: sou muito amada.