Política e Resenha

ARTIGO – SUS EM XEQUE: A PANDEMIA COMO ÁLIBI E O DESVIO COMO MÉTODO

 

Padre Carlos)

Há crimes que ferem o erário e há crimes que ferem a consciência nacional. O desvio de recursos do Sistema Único de Saúde, agora investigado pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União em Juazeiro, pertence às duas categorias. Não se trata apenas de corrupção administrativa; trata-se de uma violação moral agravada pelo contexto em que tudo teria começado: a pandemia da Covid-19, quando a população clamava por leitos, exames, atendimento digno e respostas rápidas do poder público.

A chamada Operação Litíase lança luz sobre um padrão que o Brasil conhece bem, mas insiste em tolerar: o uso de situações emergenciais para flexibilizar controles, atropelar critérios técnicos e abrir caminho para contratos direcionados, licitações viciadas e pagamentos sem comprovação de serviços. Quando a urgência vira regra e a exceção vira método, a corrupção encontra terreno fértil.

Os indícios apontados pela investigação são graves e simbólicos. A locação de um imóvel sem especificação clara de atendimentos e internações, coincidente com a sede do instituto contratado, revela mais do que descuido administrativo: sugere a construção deliberada de um arranjo feito sob medida. Some-se a isso pagamentos milionários sem lastro documental, ausência de informações sobre exames e procedimentos realizados e a continuidade do esquema até 2023. O que se desenha não é um erro pontual, mas uma engrenagem.

Os números impressionam e indignam. Mais de R$ 13 milhões pagos às empresas envolvidas, sendo quase R$ 7 milhões provenientes de recursos do SUS. Em termos concretos, isso significa menos atendimento na ponta, filas maiores, exames não realizados, diagnósticos tardios e, possivelmente, vidas perdidas. Cada real desviado da saúde pública carrega um custo humano invisível, mas real.

É preciso dizer com todas as letras: desviar recursos do SUS é atacar o principal instrumento de proteção social do país. O SUS não é perfeito, mas é essencial. Ele sustenta a saúde de milhões de brasileiros, especialmente dos mais pobres, e foi decisivo para que o Brasil atravessasse a maior crise sanitária de sua história recente. Transformar esse sistema em fonte de enriquecimento ilícito é uma forma cruel de traição ao interesse público.

O mérito da operação está não apenas na repressão, mas no recado institucional. A atuação conjunta da PF e da CGU reafirma que a fiscalização, o controle e a transparência não podem ser suspensos nem mesmo — ou sobretudo — em tempos de crise. Emergência não é sinônimo de carta branca. Pelo contrário: quanto maior a urgência, maior deve ser o rigor ético.

Juazeiro, o Sertão do São Francisco e a Bahia não merecem ser lembrados por escândalos de corrupção, mas por sua gente, sua resistência e sua capacidade de superar adversidades. Para isso, é fundamental que as investigações avancem, que os responsáveis sejam identificados e punidos, e que os recursos públicos sejam tratados com o respeito que o cidadão exige e merece.

A pandemia passou, mas suas feridas ainda estão abertas. Entre elas, a sensação amarga de que, enquanto muitos lutavam para respirar, outros podem ter visto na tragédia uma oportunidade de negócio. Combater esse tipo de prática não é apenas uma exigência legal; é um imperativo moral, político e civilizatório. O SUS precisa ser defendido não só dos vírus, mas também daqueles que insistem em parasitá-lo.