
(Padre Carlos)
A mais recente pesquisa Quaest não apenas mediu intenções de voto; ela escancarou um traço essencial da política brasileira contemporânea: a extrema direita não se move por gestão, currículo ou moderação. Ela se alimenta de ódio, radicalismo e identidade de clã. E é exatamente por isso que Tarcísio de Freitas não decolou.
No cenário testado pela Quaest, Lula aparece com 41% das intenções de voto, consolidando uma liderança ampla e consistente. Flávio Bolsonaro surge com 23%, enquanto Tarcísio amarga apenas 10%. A diferença não é casual, nem conjuntural. Ela revela um dado estrutural: Tarcísio não representa a extrema direita raiz, aquela que se organiza a partir do ressentimento, da guerra cultural permanente e da devoção quase religiosa a Jair Bolsonaro.
Durante meses, setores do centrão, do mercado financeiro e da imprensa econômica venderam a ideia de que Tarcísio seria o “bolsonarista viável”, o nome capaz de herdar os votos do bolsonarismo sem o peso do radicalismo explícito. A pesquisa desmonta essa fantasia. O bolsonarismo não transfere votos por afinidade ideológica abstrata; ele transfere por laço familiar, simbólico e emocional. Flávio pontua porque carrega o sobrenome. Porque é do clã. Porque, para esse eleitorado, o sangue fala mais alto que qualquer projeto.
A extrema direita raiz não quer um gestor técnico, nem um engenheiro de obras públicas com discurso polido. Ela quer confronto, inimigos claros, linguagem agressiva e a sensação permanente de estar em guerra contra o “sistema”, ainda que viva dele. Nesse ambiente, Tarcísio soa artificial. Ele não encarna o ódio como método político, não performa o extremismo radical como identidade, não mobiliza a base pela raiva. E, para esse segmento, isso é fatal.
A análise do jornalista Henrique Rodrigues, da revista Fórum, ajuda a compreender esse fenômeno. Fora da sombra de Jair Bolsonaro, Tarcísio revela sua real estatura política nacional: a de um tecnocrata dependente, sem base própria, sem carisma popular e sem capacidade de aglutinar a direita radical. O bolsonarismo não se organiza em torno de planilhas ou indicadores econômicos; ele se organiza em torno do culto à personalidade e da retórica do confronto.
Há ainda um paradoxo que agrava a situação do governador paulista. Embora não represente a extrema direita raiz, Tarcísio é percebido por ela como o candidato do sistema. E não sem razão. Seu projeto está alinhado ao neoliberalismo mais duro, à agenda de privatizações, à redução do Estado social e ao enfraquecimento de políticas públicas de proteção. A venda da Sabesp simboliza esse método. A ameaça à Petrobras, aos programas sociais como o Bolsa Família e o Pé-de-Meia, completa o quadro. Trata-se de um modelo que agrada ao mercado financeiro, mas não inflama as massas radicalizadas.
O resultado é um isolamento político peculiar: Tarcísio não empolga o eleitorado extremista e tampouco conquista os setores populares. Ele fica preso num limbo, rejeitado por lulistas, malvisto por bolsonaristas raiz e sustentado apenas por analistas que insistem em confundir desejo com realidade eleitoral. A própria pesquisa mostra que sua rejeição é alta inclusive entre eleitores de Bolsonaro, especialmente após os ataques públicos de Eduardo Bolsonaro, que o rotulou como “candidato do sistema”.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, não cresce por mérito próprio ou densidade política. Ele pontua porque representa a continuidade simbólica do bolsonarismo. Seu desempenho é menos uma afirmação pessoal e mais a prova de que, sem Jair Bolsonaro na urna, a extrema direita prefere alguém do clã a qualquer alternativa externa, por mais “competente” que ela pareça aos olhos do mercado.
A pesquisa Quaest, portanto, deixa uma lição clara para quem insiste em subestimar a lógica do extremismo: a extrema direita brasileira não busca governabilidade, busca identidade; não busca projeto, busca confronto; não busca resultados, busca pertencimento. Tarcísio não decolou porque não fala essa língua. E dificilmente falará.
Enquanto isso, Lula observa esse campo adversário fragmentado, dividido e prisioneiro de suas próprias contradições. A direita radical segue refém do sobrenome Bolsonaro, e os candidatos fabricados fora desse núcleo continuam descobrindo, tarde demais, que sem ódio não há mobilização; e sem o clã, não há bolsonarismo.




