Política e Resenha

ARTIGO – “Temperamento Golpista e a Coragem Institucional de Paulo Gonet”

 

 

(Padre Carlos)

A cada dia que passa, a História vai revelando, com sua luz implacável, o que muitos se recusaram a ver nas sombras do poder. O depoimento do ex-presidente Jair Bolsonaro à Justiça, analisado minuciosamente e desmontado com precisão cirúrgica pelo Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, escancara algo que não pode mais ser ignorado: o golpismo travestido de “temperamento”.

Na narrativa bolsonarista, o ataque às instituições foi reduzido a uma “questão de estilo”. Como se desrespeitar o Supremo Tribunal Federal, convocar manifestações com ameaças explícitas, manter acampamentos clamando por intervenção militar e até manter, na própria mesa, um discurso pronto para decretar Estado de Sítio fossem apenas manifestações temperamentais de um líder… impulsivo. Não eram.

Paulo Gonet, com a serenidade que o cargo exige e a coragem que a democracia precisa, desmontou, ponto por ponto, essa farsa. Não se trata de palavras ao vento, mas de atos orquestrados, discursos programados, reuniões oficiais mobilizando recursos públicos, um ambiente fomentado para corroer a confiança no sistema eleitoral e preparar terreno para o que hoje é julgado como tentativa de golpe de Estado.

Diante da pergunta crucial — “por que o senhor não desmobilizou os acampamentos golpistas?” — Bolsonaro ensaia respostas evasivas, aponta para os caminhoneiros, evoca lives e vídeos, mas foge do essencial: a omissão deliberada. Porque naquele silêncio, havia cumplicidade. Porque, naquele ambiente de radicalização, havia uma aposta clara: se o caos prosperasse, talvez o golpe vingasse.

E mais: um discurso impresso, pronto, elaborado e guardado em sua mesa — não por acaso, mas como ferramenta política em caso de insurreição institucional. E o que diz Bolsonaro? Que não sabia, que foi o advogado, que era cópia de um documento… uma sequência de desculpas que, de tão absurdas, beiram o deboche.

O que Paulo Gonet fez, nesse depoimento, não foi apenas um trabalho jurídico. Foi um ato pedagógico. Mostrou ao país que o Ministério Público pode e deve ser altivo, que as instituições ainda respiram e que a democracia brasileira — embora machucada — tem em seus quadros homens e mulheres dispostos a defendê-la com firmeza.

Se o bolsonarismo idolatra o “temperamento” como justificativa para tudo — da grosseria à barbárie — o país precisa idolatrar algo mais precioso: a Constituição, a verdade dos fatos, a memória institucional. O Brasil já viu muitos caudilhos tentarem se escorar em seus perfis carismáticos ou truculentos para justificar o injustificável. Mas o Estado Democrático de Direito não pode ser refém do “jeitinho” autoritário.

A cada resposta vazia, a cada sorriso cínico, Bolsonaro revelou sua verdadeira natureza: a de um líder que tentou moldar a realidade com base no seu desejo de poder, que desdenhou da ordem legal, que flertou abertamente com o autoritarismo. O nome disso não é “temperamento”. O nome disso é GOLPE.

E o Brasil precisa dizer isso, com todas as letras.