Política e Resenha

ARTIGO – Um coração sangrando diante do esquecimento

 

 

(Padre Carlos)

Meu coração sangra.

Foi-se mais uma parte viva da nossa história. Os escombros do prédio onde funcionaram o lendário Magazine Aracy e, mais recentemente, o Spaço Xis, são as ruínas de um tempo que Vitória da Conquista está esquecendo. A cidade que amamos, que guarda tantas histórias, está sendo silenciada pela força avassaladora do capital, pelo rolo compressor de uma urbanização cega, gananciosa e insensível.

Não é apenas concreto que está sendo demolido. São memórias. São vidas. Quantos conquistenses ali viveram momentos únicos? Quantos primeiros empregos? Primeiros encontros? Histórias de luta e superação? Tudo agora varrido por um novo projeto que sequer olha para trás.

Fico atônito diante da nossa falta de senso histórico. Não criamos critérios. Não há uma política séria de preservação do patrimônio urbano. A paisagem da cidade está sendo lavada com cal e tinta de grandes redes varejistas, que chegam como se sempre tivessem estado aqui. E, ao mesmo tempo, as marcas que contam quem somos são apagadas como se nunca tivessem existido.

Se continuarmos assim, daqui a algumas décadas, Vitória da Conquista será apenas uma maquete genérica, sem identidade. Os mais jovens caminharão por essas ruas sem saber quem foi Aracy, o que foi o Spaço Xis, o que se viveu na Alameda Ramiro Santos. Perderemos a alma da cidade para o esquecimento.

É preciso resistir. É urgente discutir políticas públicas que salvaguardem os lugares que nos contaram e nos contam. É necessário olhar para o passado com o respeito que ele merece. O progresso não pode ser construído em cima dos escombros da memória.

Hoje, me despeço desse prédio com tristeza e indignação. Não por nostalgia, mas por consciência histórica. Porque quando apagamos o que fomos, enfraquecemos o que somos e condenamos o que seremos.