Política e Resenha

ARTIGO – Vitória da Conquista Mostra o Caminho: Quando a Comunicação Legislativa Se Torna Pilar da Democracia

 

 

(Padre Carlos)

A Câmara Municipal de Vitória da Conquista realizou nesta quarta (29) e quinta-feira (30) de outubro um evento que, embora possa parecer apenas mais um encontro técnico, representa algo muito maior: a tentativa concreta de democratizar a democracia brasileira. O 1º Encontro de Comunicação Legislativa, realizado no Auditório do CEMAE sob condução do vereador Ivan Cordeiro (PTB) e apresentação do músico Xangai, reuniu especialistas, vereadores, assessores, jornalistas e comunicadores em torno de uma questão urgente: como fazer a política chegar verdadeiramente às pessoas?

A resposta está na fala do diretor de Comunicação da Câmara, Fábio Sena, que sintetiza o espírito da iniciativa: “Queremos promover um encontro de pessoas que pensam e produzem comunicação legislativa, aproximando profissionais de diferentes áreas e incentivando uma comunicação mais democrática, inclusiva e transparente”. Mais do que jargão institucional, essa declaração revela uma consciência rara no cenário político brasileiro: a de que representar sem comunicar é apenas exercer poder, não democracia.


O paradoxo democrático que nos assombra

Vivemos sob um regime que pressupõe a participação popular, mas a maior parte da população desconhece os mecanismos básicos do processo legislativo que determina seu cotidiano. Quantos cidadãos sabem explicar o que é um projeto de lei? Quantos acompanham as votações que impactam diretamente suas vidas — o preço do transporte, a qualidade da educação, o acesso à saúde? A resposta é desconfortável e revela a urgência de repensarmos não apenas a representação política, mas sobretudo a comunicação entre mandatos e sociedade.

O encontro promovido em Vitória da Conquista parte de uma premissa tão simples quanto revolucionária: profissionalizar os mandatos para que alcancem todas as classes sociais, transformando a política em uma “grande sala de aula” onde todos são simultaneamente professores e alunos. Há aqui uma inversão fundamental do paradigma tradicional, que enxerga a comunicação política como mero marketing eleitoral, ferramenta de autopromoção desconectada do interesse público.


Vitória da Conquista como laboratório democrático

A escolha de reunir especialistas, comunicadores e profissionais de diferentes áreas não é casual. Reconhece-se que a comunicação legislativa é campo complexo, que exige técnica, estratégia e, sobretudo, compromisso ético. Não basta boa vontade; é preciso dominar as ferramentas, entender os públicos, testar abordagens, medir resultados. É preciso, enfim, profissionalizar sem mercantilizar.

O evento baiano demonstra maturidade política ao assumir que representantes eleitos precisam aprender — aprender a comunicar, a traduzir o tecnicismo legislativo em linguagem acessível, a construir pontes entre o Parlamento e a padaria, entre a tribuna e a roça. Representa quem informa, quem esclarece, quem presta contas não apenas quando legalmente obrigado, mas como compromisso diário e ético.

A presença de profissionais como Gisele Metten, que desenvolveu estratégias específicas para mandatos, e de agências especializadas em construção de marca política, pode gerar desconforto inicial. “Marca política” não seria vocabulário típico do marketing que queremos evitar? Aqui reside distinção crucial: construir uma marca não significa necessariamente vender uma imagem falsa. Pode significar criar identidade consistente, estabelecer credibilidade, tornar-se referência em determinados temas. O problema nunca foi a técnica; sempre foi o propósito.


Redes sociais: território incontornável

O reconhecimento de que “as redes sociais é que dão tom” no mundo contemporâneo é realista e necessário. Elas democratizaram o acesso à informação e permitiram que vozes historicamente silenciadas ganhassem amplitude, mas também criaram bolhas ideológicas, disseminaram desinformação e transformaram debates complexos em embates rasos.

A questão, portanto, não é se devemos usar as redes sociais, mas como usá-las de maneira que fortaleçam, e não corrompam, o debate democrático. A diferença está justamente na intenção explicitada por Fábio Sena: tornar a comunicação “mais democrática, inclusiva e transparente”. Quando um mandato utiliza suas plataformas digitais para explicar o impacto prático de uma medida provisória sobre o preço do gás de cozinha, está fazendo comunicação democrática. Quando usa essas mesmas plataformas apenas para postar fotos sorridentes e frases de efeito, está fazendo marketing vazio.

A fronteira é tênue, mas essencial. E eventos como o promovido em Vitória da Conquista ajudam a traçá-la com clareza.


O abismo que ainda precisamos atravessar

O objetivo declarado é alcançar “pessoas de todas as classes sociais, de todos os ambientes periféricos, rurais, urbanos”. Ambição necessária, mas que esbarra em obstáculos concretos: exclusão digital, analfabetismo funcional, jornadas de trabalho exaustivas que não deixam tempo para acompanhar política, desencanto cultivado por décadas de promessas não cumpridas.

O reconhecimento honesto de que “muita gente acabou ficando de fora” é ponto de partida para estratégias múltiplas. Redes sociais, sim, mas também rádios comunitárias, reuniões presenciais, materiais impressos, linguagem simples, horários acessíveis. Democratizar a democracia exige criatividade, persistência e humildade para reconhecer que o conhecimento político não está concentrado nos gabinetes.

O agricultor sabe de políticas agrícolas de um jeito que o vereador nunca saberá; o professor conhece a educação por dentro; o usuário do SUS entende a saúde pública como nenhum gestor conseguirá. A proposta de construir uma “rede de relações, de articulação, de aprendizado mútuo” sugere horizontalidade, troca de saberes, reconhecimento dessa expertise plural. A questão é criar canais para que esses conhecimentos dialoguem e influenciem as decisões.


Comunicação que emancipa, não que manipula

Quando Fábio Sena fala em “aproximar profissionais de diferentes áreas”, está propondo algo mais profundo do que capacitação técnica. Está defendendo uma comunicação política que emancipe em vez de manipular. Que forme cidadãos críticos em vez de eleitores passivos. Que trate adultos como adultos, capazes de compreender complexidades quando bem explicadas. É aposta na inteligência coletiva contra a simplificação demagógica.

Paulo Freire ensinou que educação é um ato político. Podemos completar: comunicação política deveria ser um ato educativo. Quando um mandato explica pacientemente como funciona o processo legislativo, está plantando sementes de autonomia cívica. Quando esconde contradições sob slogans vazios, está cultivando o desencanto que alimenta autoritarismos.

O 1º Encontro de Comunicação Legislativa de Vitória da Conquista, evento inédito no interior da Bahia, representa mais do que troca de experiências. É declaração de princípios: a de que democracia não se sustenta apenas em instituições formais, mas precisa de cidadãos informados, engajados, capazes de cobrar e participar. E isso requer comunicação honesta, estratégica, profissional — não no sentido mercadológico, mas no sentido de excelência técnica a serviço do interesse público.


O desafio que Vitória da Conquista lança ao Brasil

A iniciativa da Câmara Municipal conquista importância que transcende o município. Em tempos de descrédito institucional, de fake news desenfreadas, de polarização que paralisa, apostar na comunicação como pilar democrático é ato de resistência e esperança. É recusar o monopólio da compreensão política. É afirmar que todo cidadão tem direito não apenas ao voto, mas ao entendimento.

Democratizar a democracia é transformar cada mandato em ponte, cada rede social em sala de aula, cada projeto de lei em conversa acessível. É fazer com que a pessoa “na roça ou no consultório saiba o que que é um projeto de lei, o que está sendo votado, qual é o impacto daquela medida legislativa na sua vida diária”. É trabalho árduo, diário, muitas vezes invisível.

Mas é o único caminho se queremos uma democracia que mereça verdadeiramente este nome. E Vitória da Conquista está mostrando que esse caminho não apenas é possível, mas já está sendo trilhado. Que outros municípios, outras câmaras, outros parlamentos tenham a coragem e a visão de seguir esse exemplo. A democracia brasileira agradece.