Política e Resenha

ARTIGO – Vitória da Conquista não pode mais carregar o Sudoeste e o Norte de Minas sozinha: a conta não fecha

 

 

(Padre Carlos)

Há números que não são frios. Eles gritam. Em dezembro de 2025, o Hospital Municipal Esaú Matos realizou 4.283 atendimentos obstétricos e pediátricos. Foram 1.894 atendimentos na obstetrícia, 2.389 na pediatria, 462 nascimentos e 86 internamentos pediátricos. Por trás dessas estatísticas estão mães exaustas, crianças fragilizadas e profissionais de saúde trabalhando no limite. E há, sobretudo, uma verdade incômoda que precisa ser dita com clareza: Vitória da Conquista está sustentando sozinha um sistema de saúde que atende uma macrorregião inteira, inclusive outros estados.

O Esaú Matos deixou de ser, na prática, um hospital municipal. Tornou-se um hospital de referência regional e interestadual, acolhendo pacientes de 49 municípios da Bahia, além de cidades de Sergipe, São Paulo e, de forma expressiva, do Norte de Minas Gerais. A diretora-geral da Fundação Pública de Saúde, Ceres Almeida, tem razão ao destacar o compromisso e a competência da equipe. Mas compromisso não substitui planejamento, nem dedicação supre falta de financiamento. Boa vontade não paga conta.

A realidade é dura: Vitória da Conquista não tem orçamento, estrutura nem obrigação legal para manter sozinha um hospital que funciona como polo de alta demanda regional. A superlotação do Esaú Matos não é fruto de má gestão local; é consequência direta da ausência de responsabilidade compartilhada. Estados e municípios vizinhos se beneficiam da estrutura, mas não contribuem de forma proporcional. Em especial, Minas Gerais, que envia pacientes diariamente, permanece ausente na hora do custeio, dos repasses e da construção de soluções estruturais.

Essa sobrecarga cobra um preço alto. Profissionais adoecem, equipes se desgastam, insumos se tornam insuficientes, filas crescem. A qualidade do atendimento fica sob risco, e quem paga essa conta são, paradoxalmente, as próprias mães e crianças de Vitória da Conquista, que veem recursos destinados à população local serem consumidos por uma demanda externa permanente. Não se trata de negar atendimento — saúde é direito universal —, mas de exigir justiça federativa e pactuação real.

Em outras regiões do Brasil, modelos de gestão compartilhada mostram que é possível dividir custos, responsabilidades e investimentos entre estados e municípios quando um hospital atende além de suas fronteiras. Aqui, porém, o que se vê é um silêncio administrativo que beira a negligência. O resultado é um sistema à beira do colapso, sustentado pelo esforço heroico de quem está na ponta.

É hora de agir. O governo da Bahia e a prefeitura de Vitória da Conquista precisam cobrar, com firmeza, compensação financeira e logística dos estados que utilizam o serviço. É urgente revisar os pactos regionais de saúde, definir responsabilidades claras e garantir repasses automáticos. Mais do que isso: é fundamental investir na criação e fortalecimento de unidades obstétricas e pediátricas nos municípios mineiros e baianos que mais demandam o Esaú Matos, descentralizando o atendimento e reduzindo a pressão sobre Conquista.

Humanizar o debate não é suavizar a crítica; é lembrar que vidas estão em jogo. Cada parto, cada internação pediátrica, cada atendimento emergencial carrega histórias, medos e esperanças. Mas humanização sem financiamento é discurso vazio. Solidariedade sem responsabilidade é injustiça disfarçada.

A pergunta final permanece ecoando nos corredores do hospital e na consciência pública: até quando Vitória da Conquista vai sustentar sozinha um sistema que deveria ser responsabilidade de vários estados? A conta não fecha. E insistir nesse modelo é empurrar o problema para um colapso anunciado. Chegou a hora de dizer, com coragem e lucidez: chega.