Política e Resenha

ARTIGO – VOAR PARA SALVADOR: ENTRE A FRUSTRAÇÃO DO PASSAGEIRO E A REALIDADE DO MERCADO AÉREO

 

 

José Maria Caires

Falo aqui não apenas como analista, mas como empresário com décadas de experiência no ramo de turismo e transporte, acompanhando de perto o comportamento do mercado, das companhias aéreas, das rodoviárias e, sobretudo, do passageiro do Sudoeste baiano. O que está acontecendo com os voos para Salvador não é fruto de acaso, nem de má vontade isolada: é resultado de uma combinação perigosa entre redução de oferta, concentração de mercado, custos operacionais elevados e falta de planejamento estratégico regional.

A Região Sudoeste, especialmente cidades como Vitória da Conquista, vive hoje um verdadeiro desencanto com Salvador. A capital da Bahia, que sempre foi o principal polo de conexões, saúde, negócios e lazer, tornou-se um destino aéreo instável, caro e imprevisível. A escassez de voos diários mudou completamente os hábitos do viajante. Muitos desistiram do avião e migraram para o ônibus leito, mesmo enfrentando longas horas de estrada. Isso, por si só, já é um sintoma claro de falha estrutural no sistema aéreo regional.

Os preços das passagens aéreas, quando compradas de última hora, estão fora de qualquer parâmetro razoável. Não se trata apenas de “alta demanda”, como gostam de justificar. Trata-se de pouca oferta, poucos horários, baixa concorrência e um modelo de precificação agressivo que penaliza quem precisa viajar por urgência. Saúde, trabalho e compromissos familiares não podem esperar promoções relâmpago.

Mas é preciso dizer a verdade completa à população e aos clientes: o mercado ainda oferece boas oportunidades para quem consegue planejar. Quando a viagem tem data definida e algum grau de antecedência, os preços caem de forma significativa. Salvador, Belo Horizonte, São Paulo e outros grandes centros ainda podem ser acessados com tarifas competitivas, desde que o passageiro compre com estratégia e orientação profissional.

Como empresário do setor, deixo algumas orientações claras. Primeiro: planejar não é luxo, é sobrevivência financeira. Comprar passagens com antecedência pode significar economizar centenas de reais. Segundo: diversificar destinos e conexões é fundamental. Muitas vezes, voar para Belo Horizonte ou São Paulo abre alternativas melhores de custo e horário do que insistir exclusivamente em Salvador. Terceiro: o apoio de uma agência séria faz diferença. Profissionais acompanham variações de tarifa, janelas promocionais e rotas alternativas que o passageiro comum não consegue monitorar diariamente.

O que não podemos aceitar é a naturalização do caos aéreo regional. A população do Sudoeste produz, consome, gera riqueza e merece conectividade aérea digna. É preciso pressão institucional, articulação política e diálogo com as companhias aéreas para ampliar a malha, aumentar a frequência de voos e devolver competitividade ao mercado. Sem isso, continuaremos empurrando passageiros para o transporte rodoviário por falta de opção, não por escolha.

Enquanto essa correção estrutural não acontece, a melhor arma do consumidor é a informação. Viajar hoje exige inteligência, planejamento e assessoria. O turismo, os negócios e a mobilidade regional dependem disso. Quem entende o mercado não deixa de voar; aprende a voar melhor, pagando menos e evitando frustrações desnecessárias.