Política e Resenha

ARTIGO – Wilson Aragão: o trovador do sertão baiano

 

(Padre Carlos)

No coração do sertão da Bahia, nasceu uma voz que nunca se calou: Wilson Aragão, cantor, compositor e poeta nordestino que transformou o chão seco em música e a vida dura em poesia. Nascido em Piritiba, em 25 de abril de 1950, Aragão foi um dos maiores representantes da música nordestina de raiz, levando o som e a alma do sertão para os palcos do Brasil.

Filho de um pedreiro e de uma professora primária, teve cedo contato com a palavra e o ritmo. Na adolescência, publicou sua primeira poesia no Correio do Sertão e mais tarde atuou como chargista em jornais como o Diário de Sorocaba. Sua formação musical começou nos corais da igreja, mas foi nos bares, nas praças e nos discos que sua obra ganhou o povo.

Wilson Aragão ficou nacionalmente conhecido a partir da década de 1980, quando Raul Seixas gravou sua música “Capim Guiné” — uma canção emblemática, símbolo da cultura sertaneja baiana, que mais tarde foi regravada por Tânia Alves. Outra de suas grandes composições, “Guerra de Facão”, percorreu o Brasil nas vozes de Zé Ramalho, Falcão e Roberto Seixas.

Suas músicas são verdadeiros retratos do sertão. Obras como Tecendo o Amanhecer, Sertões e Sertões, O Sertão Chora, Cuide Bem da Sua Estrada e Mosaicos exploram a vida rural, a religiosidade popular, a crítica social e a resistência cultural. Com seu estilo inconfundível — um misto de xote, toada, martelo e balada — Aragão se tornou um guardião da identidade nordestina.

Wilson Aragão não foi apenas um compositor de sucesso, mas também um poeta do povo. Sua obra está carregada de inteligência, ironia e denúncia, mas sempre envolta na leveza de quem conhece a força do riso sertanejo. Em cada letra, ele transformava o sofrimento em arte, e a alegria em resistência.

Faleceu em 24 de maio de 2025, aos 75 anos, em Salvador, vítima de câncer no fígado. Mas seu legado permanece vivo na memória de quem ama a música brasileira de raiz, a poesia nordestina, e o sertão baiano que chora e canta ao mesmo tempo.

Num tempo de canções descartáveis e de cultura pasteurizada, Wilson Aragão é farol. Não apenas por sua música, mas pelo que ela representa: um povo que canta a própria dor com orgulho e que transforma o esquecimento em memória viva.