
Autor: Padre Carlos
Há crimes que não terminam quando cessam as explosões. Eles continuam vivos — respirando na memória dos que sobreviveram, ecoando no vazio das carteiras escolares abandonadas, nos cadernos interrompidos, nos sonhos que nunca aprenderam a envelhecer.
E há crimes ainda mais graves: aqueles que o mundo decide esquecer.
É preciso perguntar, com a dureza que a consciência exige: ainda nos lembramos das meninas? Ainda nos lembramos das crianças que morreram sob o peso de uma guerra que nunca escolheram? Ainda nos lembramos da escola — esse lugar sagrado onde deveria habitar apenas o futuro — transformada em cenário de morte?
Não se trata de estatística. Nunca foi.
Mais de cem crianças não são um número — são vozes que foram caladas antes de aprenderem a gritar. São risos que não chegaram à adolescência. São meninas que talvez sonhassem em ser médicas, professoras, artistas… ou simplesmente livres.
Mas a guerra, quando é conduzida pelas grandes potências, costuma vir acompanhada de uma narrativa conveniente. Fala-se em estratégia, em alvos, em segurança nacional. Usa-se a linguagem fria para justificar o calor devastador das bombas. E, nesse teatro cuidadosamente montado, as vítimas civis — especialmente crianças — tornam-se danos colaterais.
Que expressão cruel.
“Dano colateral.”
Como se fosse possível colateralizar a infância.
O que nos resta, então, como humanidade, se aceitarmos isso?
Que civilização é essa que chora seletivamente? Que se indigna dependendo da bandeira, da geografia, da conveniência política?
Quando crianças morrem, não há lado certo. Há apenas o fracasso absoluto da condição humana.
A memória dessas meninas exige mais do que comoção passageira. Exige coragem moral. Exige que se diga, sem rodeios, que não há justificativa ética possível para a morte de inocentes. Nenhuma doutrina de guerra, nenhum discurso de defesa, nenhuma geopolítica pode absolver o sangue derramado de quem sequer sabia o que era um conflito internacional.
E, no entanto, o silêncio persiste.
Silêncio dos governos.
Silêncio das instituições.
Silêncio, muitas vezes, da própria opinião pública — anestesiada pela repetição das tragédias.
Mas esquecer é uma forma de cumplicidade.
Lembrar é resistir.
Lembrar é devolver nome e dignidade àqueles que foram reduzidos a números. É recusar que a história seja escrita apenas pelos vencedores, pelos estrategistas, pelos que nunca pisaram no chão coberto de escombros.
Essas meninas — sim, essas meninas — precisam continuar existindo na nossa consciência. Não como símbolos abstratos, mas como feridas abertas que nos obrigam a questionar o mundo que estamos construindo.
Porque, no fim, a pergunta não é apenas sobre o que aconteceu.
A pergunta é sobre quem nos tornamos ao permitir que isso seja esquecido.
E se ainda houver alguma humanidade em nós, a resposta só pode ser uma:
não, nós não esqueceremos.
Não temos esse direito.




