Política e Resenha

Caixas d’água desviadas, peculato escancarado e a política que trai o sertão

A operação policial que desarticulou o esquema de desvio e venda ilegal de caixas d’água da CODEVASF em Poções não é apenas mais uma notícia policial. Ela expõe, de forma crua e dolorosa, uma prática antiga que insiste em sobreviver no sertão baiano: a apropriação privada de bens públicos destinados aos mais pobres, travestida de “ajuda política” ou “benefício eleitoral”.

Estamos falando de 41 reservatórios de água, avaliados em cerca de R$ 120 mil, doados pelo Governo Federal por meio da CODEVASF para fins sociais. Não eram mercadorias. Eram instrumentos de dignidade, pensados para garantir acesso à água, minimizar os efeitos da seca e assegurar condições mínimas de sobrevivência a comunidades historicamente esquecidas pelo poder público.

Segundo as investigações da Polícia Civil da Bahia, parte desse patrimônio público foi comercializada de forma criminosa. Dois irmãos foram presos em flagrante por receptação em Poções e confessaram ter adquirido as caixas d’água de um vereador do município de Manoel Vitorino. Mais grave ainda: há indícios de que as marcas do Governo Federal foram retiradas deliberadamente, numa tentativa clara de apagar a origem pública do bem e esconder o rastro do crime.

Aqui não se trata de um simples desvio administrativo. O que está em apuração é o crime de peculato, tipificado no Código Penal, quando um agente público se apropria ou desvia bens sob sua responsabilidade para benefício próprio ou de terceiros. É a traição máxima da função pública. É o uso do mandato não para servir, mas para se servir.

O esquema revelado indica uma lógica perversa: parte das caixas seria vendida, gerando lucro ilegal, enquanto outras seriam distribuídas a moradores previamente indicados pelo político, especialmente no distrito de Salgado. Essa prática, infelizmente comum, cria dependência, confunde favor com direito e transforma políticas públicas em moeda eleitoral. O que deveria ser política de Estado vira instrumento de dominação política.

Casos como este ferem diretamente a credibilidade de programas sociais, alimentam o descrédito da população nas instituições e aprofundam o abismo entre o cidadão e o poder público. Quando recursos da União, destinados ao combate à escassez de água e ao desenvolvimento regional, são desviados, não é apenas o erário que sofre prejuízo. É a vida concreta de famílias inteiras que permanece refém da seca, da pobreza e da negligência.

A importância da operação policial vai além das prisões em flagrante. Ela reafirma que há vigilância, que o patrimônio público não é terra sem lei e que o sertão não pode continuar sendo tratado como quintal eleitoral de políticos sem compromisso ético. A apresentação dos suspeitos no Distrito Integrado de Segurança Pública em Vitória da Conquista e o aprofundamento das oitivas demonstram que a responsabilização precisa alcançar todos os envolvidos, doa a quem doer.

A Joia do Sertão Baiano merece mais do que escândalos recorrentes. Merece respeito, transparência, políticas públicas executadas com seriedade e representantes que compreendam que recursos da CODEVASF, da União ou de qualquer órgão público pertencem ao povo, não a projetos pessoais de poder.

Que as caixas d’água retornem à comunidade. Que a água volte a cumprir sua função de gerar vida, e não corrupção. E que este episódio sirva como um divisor de águas: no sertão, a política precisa deixar de ser negócio e voltar a ser serviço público.

(Maria Clara)