Política e Resenha

Capturaram a Cabeça, Mas Não o Coração da Venezuela

 

 

(Padre Carlos)

Como filósofo e articulista, confesso: faltam palavras quando a violência política tenta se impor como linguagem única da história. Capotaram Maduro — no sentido simbólico e estratégico do termo — mas não capturaram a alma do povo venezuelano. Golpes podem derrubar governos, desorganizar lideranças, impor cercos econômicos e produzir imagens de caos para consumo internacional. O que não conseguem é aprisionar a memória coletiva, o sentimento de pertencimento e a identidade política forjada na luta.

A Venezuela não é apenas um governo; é um processo histórico. A Revolução Bolivariana nasceu de uma ferida aberta na América Latina: desigualdade estrutural, dependência externa, humilhação geopolítica. Tentar reduzir tudo isso a um nome — Maduro — é uma operação de simplificação conveniente para quem deseja controlar narrativas e reescrever a história a partir dos vencedores de ocasião.

Capituraram a cabeça, dizem. Mas não capturaram o coração. O coração pulsa nas comunidades, nos bairros populares, nos trabalhadores que resistem ao bloqueio econômico, nas mães que sustentam famílias inteiras sob sanções internacionais, nas redes de solidariedade que sobrevivem apesar da pressão política e midiática. É ali que a lealdade se refaz, não como culto cego a um líder, mas como fidelidade a uma ideia de soberania nacional.

A história latino-americana ensina: quando a política perde o diálogo, a força tenta ocupar o lugar da razão. Porém, a força é efêmera. O que permanece é a consciência. A lealdade a Maduro, para muitos, é menos personalista do que simbólica: representa resistência ao imperialismo, defesa do projeto bolivariano, afirmação de um país que se recusa a ajoelhar-se diante dos interesses estrangeiros.

Esperemos, portanto, não apenas os desdobramentos do poder institucional, mas os movimentos silenciosos da alma coletiva. Revoluções verdadeiras não se medem apenas por palácios ocupados ou cadeiras derrubadas, mas pela capacidade de um povo continuar acreditando em si mesmo. Quando capturam apenas a cabeça, deixam intacto o coração — e é dele que nascem os recomeços.

Salve a Venezuela. Porque governos passam, crises atravessam, mas um povo consciente não se rende. 💓