Por Maria Clara | Blog Política e Resenha
Projeto-piloto no bairro Boa Vista une preservação ambiental, educação da população e geração de renda para trabalhadores da reciclagem.
A sustentabilidade começa com pequenas atitudes, mas pode produzir grandes transformações na vida de uma comunidade. Em Vitória da Conquista, no sudoeste da Bahia, uma iniciativa da Prefeitura busca mostrar, na prática, como a destinação correta dos resíduos pode contribuir para a preservação ambiental e, ao mesmo tempo, fortalecer a economia de famílias que vivem da reciclagem.
Desde abril de 2026, a Coordenação de Limpeza Pública, vinculada à Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop), desenvolve um projeto-piloto de coleta seletiva porta a porta em parceria com a Associação de Catadores de Resíduos Sólidos Recicláveis de Vitória da Conquista (ACRES).
Nesta primeira etapa, a iniciativa atende ao bairro Boa Vista, região que reúne estabelecimentos comerciais e diversos condomínios. A experiência poderá servir de referência para a ampliação do serviço e para o incentivo a hábitos mais conscientes de descarte de resíduos.
Mais do que recolher materiais recicláveis, o projeto coloca em evidência um tema fundamental para as cidades: a necessidade de conciliar desenvolvimento urbano, responsabilidade ambiental e valorização dos profissionais que atuam na reciclagem.
Coleta porta a porta incentiva descarte consciente
Com o apoio do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (Ifba), o projeto também promove ações de educação ambiental, orientando os moradores sobre a separação adequada dos resíduos e os dias de recolhimento.
A coleta acontece às segundas e sextas-feiras. Nessas datas, os moradores devem deixar os materiais recicláveis em frente às residências para que sejam recolhidos pelos trabalhadores da ACRES.
A participação da população é essencial para o funcionamento da iniciativa. Quando os resíduos são separados corretamente, o trabalho dos catadores se torna mais organizado, o aproveitamento dos materiais aumenta e diminui a quantidade de recicláveis descartados no lixo comum.
A gerente de gestão ambiental da Prefeitura, Camila Sodré, destaca que a ação reúne benefícios ambientais e sociais. Segundo ela, a redução do volume de materiais encaminhados ao aterro sanitário pode prolongar a vida útil da estrutura, minimizar a poluição e diminuir custos operacionais, além de contribuir para a geração de renda e a autonomia financeira das famílias envolvidas.
Do material descartado à matéria-prima
Depois da coleta, os materiais são levados ao galpão da associação, onde passam por uma etapa de triagem. Papelão, papéis em geral, embalagens plásticas, garrafas PET, latas de metal e alumínio, vidro e isopor são separados de acordo com suas características.
Posteriormente, os resíduos seguem para galpões parceiros, onde passam por processos de preparação e transformação em matéria-prima para a fabricação de novos produtos, como mangueiras, sacolas, tubos, bobinas e lonas.
Esse processo contribui para manter materiais aproveitáveis em circulação, reduzindo o desperdício e estimulando a economia circular, modelo que busca prolongar a utilização dos recursos e diminuir a geração de rejeitos.
A iniciativa também ajuda a chamar a atenção para um problema comum nas cidades: materiais que poderiam ser reciclados acabam sendo descartados de forma inadequada por falta de informação ou de uma rotina de separação dentro das residências.
Catadores ganham visibilidade e novas oportunidades
Um dos principais aspectos do projeto é o fortalecimento do trabalho dos catadores de materiais recicláveis, profissionais que desempenham um papel importante na gestão dos resíduos urbanos.
Para o presidente da ACRES, Wallace Sousa, a parceria representa uma oportunidade de reconhecimento profissional e de melhoria das condições econômicas da associação.
Ele destaca que a organização do trabalho tem permitido buscar novas oportunidades de comercialização, inclusive com a venda direta para a indústria, reduzindo a dependência dos intermediários e criando possibilidades de ampliar a renda obtida com os materiais.
A valorização desses trabalhadores é fundamental para que a reciclagem seja reconhecida não apenas como uma prática ambiental, mas também como uma atividade econômica que sustenta famílias e movimenta cadeias produtivas.
Quando os catadores contam com melhores condições de trabalho, espaço adequado para a triagem e possibilidades mais vantajosas de comercialização, toda a cadeia de reaproveitamento dos resíduos pode se beneficiar.
Estrutura adequada melhora a rotina de trabalho
A mudança na organização da atividade também é percebida por quem participa diretamente da coleta e da separação dos materiais.
A catadora Danila de Jesus relata que a disponibilidade de um espaço específico para o trabalho trouxe melhorias para a rotina da equipe. Antes, segundo ela, parte dos materiais era recolhida e armazenada nas próprias residências dos trabalhadores. Com a estrutura da associação, a separação passou a ocorrer em um local apropriado.
O relato evidencia uma dimensão importante das políticas de reciclagem: para que a atividade seja sustentável, não basta incentivar a população a separar o lixo. Também é necessário oferecer condições para que os profissionais responsáveis pelo reaproveitamento dos materiais possam trabalhar com mais organização e dignidade.
Projeto pode chegar às escolas
A Prefeitura também prevê a possibilidade de levar a iniciativa às escolas, ampliando as ações de conscientização ambiental entre crianças e adolescentes.
A proposta é estimular a separação correta dos resíduos desde a infância, ajudando a construir hábitos que possam ser reproduzidos em casa e compartilhados com as famílias.
A educação ambiental é uma ferramenta importante para consolidar mudanças de comportamento. Quando os estudantes compreendem o destino dos materiais descartados e a importância da reciclagem, tornam-se participantes ativos na construção de comunidades mais conscientes.
A possível expansão para o ambiente escolar também poderá aproximar estudantes, famílias, poder público e catadores, fortalecendo a compreensão de que a responsabilidade pelos resíduos é compartilhada.
Um passo para uma cidade mais sustentável
O projeto-piloto desenvolvido no Boa Vista representa uma experiência que combina coleta seletiva, conscientização ambiental e inclusão produtiva. Seus resultados poderão ajudar a orientar futuras ações e a identificar caminhos para ampliar a participação dos moradores de Vitória da Conquista.
Para que iniciativas desse tipo alcancem resultados duradouros, a continuidade do serviço, o envolvimento da população e a valorização dos catadores são fatores essenciais.
A reciclagem começa na separação feita dentro de casa, mas seus benefícios ultrapassam os limites de cada residência. Ela contribui para reduzir o desperdício, aproveitar recursos, diminuir a pressão sobre os aterros sanitários e criar oportunidades de trabalho.
No fim das contas, cuidar do meio ambiente também significa reconhecer quem transforma aquilo que muitos descartam em uma nova oportunidade.
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Fonte: Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista. Notícia publicada em 23 de outubro de 2026.





