
(Padre Carlos)
A política, às vezes, não se decide na praça pública, nem nos palanques, nem mesmo no plenário. Ela se decide em uma ligação de 40 minutos, discreta na forma, explosiva no conteúdo. Foi exatamente isso que aconteceu em 2 de dezembro de 2025, quando Lula e Donald Trump, dois líderes de estilos opostos, encontraram um ponto de convergência: o combate ao crime organizado internacional.
À primeira vista, parecia apenas mais uma conversa diplomática sobre tarifas e cooperação. Mas olhando mais fundo — no subterrâneo do poder, onde se movimentam os fluxos de dinheiro, armas, interesses estratégicos e discursos eleitorais — percebe-se que aquela ligação deslocou placas tectônicas da política brasileira. E o que saiu dos bastidores ameaça, ao mesmo tempo, o crime organizado e a estratégia bolsonarista nos Estados Unidos.
Lula assumiu uma posição calculada: sufocar financeiramente as facções brasileiras que transformaram Miami, Delaware e outros polos americanos em paraísos da lavagem de dinheiro. Ele citou operações recentes como a Carbonoculo e o caso Vorcaro, chamando atenção para laranjas, offshores, empresas de papel e imóveis de luxo comprados com dinheiro criminoso. Trump respondeu com entusiasmo, prometendo abrir os cofres da inteligência fiscal americana — Receita, bases de dados, fundos suspeitos — e ajudar o Brasil a bloquear bens, recuperar valores e rastrear redes.
Nesse ponto, a cooperação Brasil–EUA, se funcionar, será devastadora para os criminosos brasileiros radicados em Miami. Mansões, iates, fundos, criptomoedas, carros de luxo — tudo pode estar prestes a congelar. É golpe direto no caixa das facções, no PCC e no Comando Vermelho, que dependem da triangulação financeira entre Brasil, Caribe e Estados Unidos.
Mas o impacto político da ligação foi ainda maior. Porque a oposição bolsonarista no exterior apostava justamente no caminho oposto. Há meses, Eduardo e Flávio Bolsonaro tentam convencer Washington a classificar PCC e CV como “organizações terroristas”. Seria a senha para acionar leis pós-11 de setembro, abrir sanções contra o Brasil e, sobretudo, criar um ambiente político que favorecesse a narrativa da anistia para Jair Bolsonaro. Eles chegaram a entregar relatórios a Sebastian Gorka, do Conselho de Segurança Nacional, e a diplomatas americanos — documentos duvidosos que “conectavam” o Comando Vermelho à Al-Qaeda.
Essa campanha sofreu um golpe mortal quando Lula levou a pauta diretamente ao presidente americano. Porque, ao pedir cooperação contra o crime — e não a designação terrorista — o governo brasileiro retirou dos bolsonaristas exatamente o instrumento que eles mais precisavam. Trump, imprevisível como sempre, ouviu Lula, acenou positivamente e sequer mencionou Jair Bolsonaro. O gesto simbólico é gigantesco.
Lula, que vinha denunciando riscos à soberania caso os EUA declarassem as facções como terroristas, conseguiu duas coisas ao mesmo tempo:
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Protegeu o Brasil de eventuais ações militares unilaterais, como as que Trump já autorizou no Caribe.
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Desmontou a narrativa bolsonarista em Washington, que apostava num atalho externo para reverter derrotas internas.
O silêncio sobre Maduro e a Venezuela na nota oficial do Planalto mostra a sutileza do movimento. Fontes confirmam que o tema foi tratado na ligação — até porque Washington prepara uma ação terrestre contra Caracas — mas Lula escolheu manter o foco no bilateral. Maduro virou “assunto oculto” na conversa, justamente para evitar ruído diplomático e proteger a cooperação recém-acertada.
No entanto, esse equilíbrio é frágil. Trump está posicionado para agir militarmente na Venezuela. Seu secretário de Defesa, Pete Hegseth, não esconde a doutrina: atacar embarcações, eliminar sobreviventes, punir países que enviem drogas. O ambiente é de guerra declarada. Se o conflito escalar, toda a costura política feita por Lula pode ser arrastada por uma tempestade geopolítica que o Brasil não controla.
Do ponto de vista estratégico, a parceria Lula–Trump está desenhada para um objetivo claro: sufocar o crime pelo bolso, não pelo sangue. Rastrear fundos em Delaware, bloquear bens em Miami, impedir entrada de armas de grosso calibre vindas dos EUA. O presidente sabe que o Brasil não fabrica fuzis AR-15; sabe que suas fronteiras não suportam mais o fluxo de munição; sabe que sem atacar o elo americano a guerra doméstica nunca será vencida.
Enquanto isso, nos bastidores, cresce o temor entre exilados políticos vinculados ao bolsonarismo nos EUA. A nova cooperação, mesmo sem citar nomes, torna mais difícil o trabalho de lobby de quem tenta usar Washington como trampolim eleitoral. Não se trata de perseguição, mas de uma mudança simples: agora Washington está ouvindo o governo brasileiro — e não intermediários com agenda própria.
Em termos eleitorais, o efeito dessa movimentação é profundo. Se a parceria produzir resultados concretos — bloqueio de bens, extradições, identificação de fluxos ilegais — Lula entrará em 2026 com um discurso poderoso: segurança pública eficiente, sem bravatas, sem militarização, sem aventuras. A ideia de “Brasil seguro graças à inteligência e à soberania” terá mais força.
A oposição, por outro lado, perde uma bandeira essencial. Sua narrativa de que “Lula falhou na segurança” não se sustenta diante de cooperação internacional eficaz. Mas ela pode ser ressuscitada se os EUA invadirem a Venezuela. Nesse caso, o discurso bolsonarista tentará colar Lula à crise regional e ao caos eventualmente gerado.
O jogo ainda não está decidido. Mas uma coisa é certa: aquela ligação mudou os fluxos do poder. Mudou o destino de criminosos com mansões em Miami. Mudou a estratégia da oposição brasileira nos EUA. Mudou a forma como o Planalto se posiciona no tabuleiro geopolítico.
Resta saber como tudo isso se traduzirá no voto.
Como isso pode moldar as eleições de 2026 no Brasil?




