Política e Resenha

CRÔNICA — “E se tudo acabar?”

 

 

Padre Carlos

Ontem à noite, o telefone tocou como quem pede socorro em silêncio. Do outro lado, a voz de um amigo. Não era apenas baixa — era cansada. Daquele tipo de cansaço que não vem do corpo, mas da alma.

— Carlos… eu ando pensando na velhice, na morte. Em como tudo vai acabar. E aí fico me perguntando: qual o propósito disso tudo, se no fim a gente vai morrer?

As palavras dele atravessaram a sala vazia e se sentaram ao meu lado. Não respondi de imediato. Há perguntas que não se respondem com velocidade — senão se machuca. Há dores que só aceitam respostas quando sentem que foram ouvidas antes de tudo.

Respirei devagar. Era como acender uma vela enquanto o vento da existência insiste em apagar tudo.

— Talvez o propósito não esteja no fim, mas no durante — eu disse. — No jeito como você ama, no jeito como você se entrega, no cuidado que você oferece quando ninguém está olhando. A gente morre, sim… mas enquanto está vivos, somos milagre. Um milagre que acontece diariamente, mesmo quando esquecemos disso.

Do outro lado da linha, ouvi apenas o ar entrando e saindo. Mas havia outra coisa escondida ali: uma espécie de alívio tímido, como quem abre uma janela depois de muito tempo.

— Sabe, Carlos… talvez você tenha razão. Talvez o que eu faço com o tempo que tenho seja o que realmente importa. Mesmo que o fim exista, ainda posso escolher o que deixo antes de ir.

Ficamos em silêncio. Mas não era aquele silêncio que aperta o peito. Era o silêncio que acolhe, o silêncio que cura. Aquele que não exige palavras — só presença.

E então eu pensei, sem dizer mais nada:
a vida é frágil como vidro, mas também é luminosa como um sol depois da tempestade. A morte existe — claro. Ela está ali, sempre lembrando que somos finitos. Mas enquanto ela não chega, ainda podemos amar com urgência, viver com coragem, sentir com profundidade.

Porque ninguém sabe quando tudo acaba. Mas até lá, é possível ser luz — nem que seja a última chama antes do escuro.

Boa noite, meu amigo.
Boa noite a todos que carregam medo no peito.
Que a vida abrace vocês antes que qualquer outra coisa aconteça.

Carlos