
Sinto a sua falta de um jeito que não sei nomear. Não é barulho. É eco. Um eco manso, persistente, desses que ficam batendo nas paredes da gente mesmo quando a casa parece vazia. Você saiu, mas deixou o ar diferente, como se o mundo tivesse esquecido de voltar ao tamanho certo depois da sua ausência.
Não é ausência, percebo agora. É espaço demais onde você deveria estar. Um espaço que não se preenche com móveis novos nem com palavras apressadas. Ele simplesmente existe. E me obriga a caminhar devagar, como quem atravessa um cômodo escuro com medo de esbarrar em lembranças.
Nunca imaginei que alguém pudesse ocupar tanto de mim depois de partir. Mas ocupa. Não como fotografia antiga, dessas que amarelam na gaveta. Você ocupa como presença que insiste, como calor que o corpo procura instintivamente quando a noite esfria. Às vezes estendo a mão no escuro — não por ilusão, mas por hábito do afeto.
Meu coração sente a sua falta em silêncio. Aprendeu a doer sem gritar. É uma dor educada, quase madura, que não pede socorro, apenas companhia. Há sofrimentos que não querem solução; querem permanência. Querem ser reconhecidos como parte da paisagem interior.
Volto aos nossos instantes como quem tenta respirar dentro do passado. Não para fugir do presente, mas para sobreviver a ele. Ficar ali mais um pouco é meu modo secreto de continuar. A memória, nesse caso, não é prisão — é abrigo. É onde me sento quando o dia pesa e o futuro ainda não aprendeu a me acolher.
Eu estou apaixonada por você de um jeito estranho: o meu futuro já reconhece esse amor, mesmo sem saber como acomodá-lo. Ele aparece nas entrelinhas dos meus planos, nos silêncios das decisões, na forma como olho para a vida com mais cuidado do que antes. Amar assim muda o ritmo do tempo.
Sinto a sua falta como quem sente sede, não de água, mas de sentido. E entendo, finalmente, que é em você que tudo em mim continua. Não porque você esteja aqui, mas porque deixou marcas que não aceitam apagamento. Há pessoas que vão embora do mundo, mas permanecem no eixo da nossa existência.
E talvez seja isso que chamam de amor quando amadurece: não a posse, não a presença constante, mas essa capacidade de seguir vivendo carregando alguém por dentro, como quem leva uma luz acesa mesmo em pleno dia.
(Padre Carlos)




