
Por Padre Carlos
Há momentos na história em que um gesto de coragem rasga o véu das convenções e nos convida a olhar além das trincheiras ideológicas que insistimos em cavar entre nós. O pronunciamento do deputado Otoni de Paula sobre a operação no Complexo do Alemão e da Penha não foi apenas um discurso político – foi um grito de dor, um testemunho de humanidade que ecoa muito além dos corredores de Brasília.
Quando um pastor conservador, frequentemente associado à chamada “direita tradicional”, sobe à tribuna para lamentar a morte de jovens negros nas favelas cariocas, algo profundo se move no tecido social brasileiro. Não porque seja surpreendente que um homem de fé defenda a vida – afinal, não deveria ser? – mas porque nos lembra, com a força de um raio que parte o céu escuro, que a defesa da vida não pode ser propriedade de nenhuma ideologia.
A vida não usa crachá partidário. Ela não se veste de vermelho ou azul. A vida pulsa, respira, sonha nas vielas do Alemão com a mesma dignidade com que bate em qualquer peito, em qualquer código postal. E quando quatro jovens de uma mesma comunidade de fé são ceifados – jovens que nunca empunharam fuzis, mas que correram porque o instinto de sobrevivência é anterior a qualquer rótulo – algo precisa ser dito. E foi.
“Preto correndo em dia de operação na favela é bandido”, denunciou o deputado, com a franqueza de quem conhece o peso da pele escura numa sociedade que ainda julga pela cor antes de ver a alma. Há uma verdade cortante nessas palavras, uma verdade que muitos prefeririam não ouvir, mas que ressoa nos corações de mães que temem cada operação policial, de pais que se despedem dos filhos pela manhã sem a certeza do reencontro.
O pânico que Otoni de Paula confessa sentir por seu próprio filho não conhece espectro político. É o medo primordial, ancestral, de um pai que sabe que a geografia da desigualdade brasileira pode transformar inocentes em alvos. Esse medo não é de esquerda nem de direita – é humano, visceral, verdadeiro.
Parabenizar o deputado não significa concordar com toda sua trajetória política ou com cada posicionamento que já assumiu. Significa reconhecer que, neste momento crucial, ele escolheu ficar ao lado da vida, mesmo quando isso poderia isolá-lo de seus pares ideológicos. Significa aplaudir a coragem de quem ousa questionar narrativas simplistas que reduzem tragédias complexas a números frios e celebrações mórbidas.
Há quem ainda insista em dividir o Brasil entre “nós” e “eles”, entre os que merecem viver e os que são descartáveis. Mas a vida – essa força misteriosa e sagrada que nos anima – não se curva a essas divisões. Ela nos desafia a transcender, a encontrar no outro o reflexo de nossa própria humanidade.
Quando vozes de diferentes matizes ideológicos se unem para dizer “basta” à banalização da morte, algo começa a germinar. Uma pequena fissura na muralha do ódio, uma fresta por onde a luz da empatia pode penetrar. Não é ingenuidade romântica – é a única via possível para uma sociedade que ainda sonha ser civilizada.
Que o exemplo de Otoni de Paula, neste episódio específico, nos inspire a todos: políticos, cidadãos, formadores de opinião. Que possamos aprender que defender a vida não nos torna menos firmes em nossas convicções, mas infinitamente mais humanos em nossa essência. Que possamos compreender que, antes de sermos de direita ou de esquerda, somos todos filhos da mesma terra, herdeiros da mesma esperança.
A vida está acima. Sempre esteve. E quando ousamos reconhecer isso, quando nos despimos das armaduras ideológicas para abraçar a vulnerabilidade do humano, aí sim começamos a construir pontes onde antes só havia abismos.
Obrigado, deputado, por nos lembrar disso. Por escolher a vida quando seria mais fácil escolher o silêncio. Por provar que a coerência com os valores mais profundos – aqueles que transcendem as disputas passageiras – ainda é possível neste Brasil tão partido, tão ferido, mas ainda capaz de se curar.




