
Por Padre Carlos
Se houvesse um Prêmio Nobel da Insensatez Legislativa, a Câmara dos Deputados do Brasil já teria levado uns bons pares de troféus. Mas, desta vez, o feito supera as proezas anteriores: em um gesto de desapego absoluto à lógica republicana, os nossos excelsos representantes decidiram tirar R$ 30 bilhões da saúde e da educação — áreas supostamente prioritárias para um país civilizado — para saldar dívidas do agronegócio. Sim, você leu certo. O futuro das crianças e o alívio dos enfermos agora servem de lastro para o cheque especial do latifúndio.
É o tipo de medida que, em outro país, derrubaria ministros, partidos e presidentes. Aqui, é só mais uma quarta-feira. Com direito a discursos inflamados e palmas entusiasmadas na galeria. No Brasil, onde se fala tanto em “pátria educadora” e “mais médicos”, descobrimos que os verdadeiros doentes são os que votam. E os que votam, digo, não são os cidadãos — esses andam anestesiados demais para reagir —, mas os deputados que apertam o botão e injetam bilhões no pulmão da bancada ruralista, deixando a UTI da saúde pública sem oxigênio e a sala de aula sem giz.
E, veja bem, nada contra o agro. Que seja pujante, moderno, competitivo, próspero. Mas se ele é “pop”, como diz a propaganda, por que precisa do socorro de um orçamento que já sangra? O agronegócio brasileiro exporta, lucra, financia campanhas — mas, quando a conta aperta, quem paga é o professor com salário congelado e o paciente na fila do SUS. É como se o padeiro pedisse dinheiro ao mendigo para comprar fermento.
Há, nesse teatro de absurdos, um componente de cinismo estrutural. A mesma Câmara que esmaga universidades e hospitais públicos em nome do “teto de gastos”, do “equilíbrio fiscal” e da “responsabilidade”, agora rasga a fantasia técnica para agradar os amigos do trator. Mas como dizem alguns: “Não tem dinheiro pra merenda, mas tem pra semente de soja”.
Pior: ninguém parece se incomodar. Nem os que votaram, nem os que assistiram. A passividade virou política de Estado. E o eleitor, esse personagem que só aparece de quatro em quatro anos, vai se esquecendo que tem poder. Ou deveria ter.
Por isso, leitor, é hora de dizer com todas as letras: não dá mais para aturar uma Câmara como essa. Não dá mais para fingir que vivemos numa democracia funcional enquanto as prioridades nacionais são decididas no compadrio de lobbies e conchavos. O Brasil está sendo administrado como se fosse um silo: fechado, abafado, e com cheiro de mofo.
A solução? Começa no voto. Mas não esse voto amnésico, conformado, passivo. Falo de um voto lúcido, rancoroso, consciente — o voto de quem perdeu um parente por falta de leito, de quem vê o filho estudar em sala sem ventilador, de quem se sente enganado.
O Brasil não vai mudar enquanto os currais eleitorais forem mais valorizados que as salas de aula. Nem enquanto o gado valer mais que o paciente. E, convenhamos, essa Câmara já passou do prazo de validade. A única dívida que deveríamos pagar, neste momento, é com a consciência.




