Política e Resenha

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Dom Zanonni faz um chamado à consciência: “Não se omita, o futuro do Brasil depende do seu voto”

Opinião · Igreja e Democracia

Por Padre Carlos

Às vésperas do segundo turno das eleições, o arcebispo Dom Zanonni dirige ao povo de Deus uma mensagem que ultrapassa os limites dos templos e alcança o coração da democracia brasileira. Seu apelo é direto, firme e profundamente comprometido com a dignidade humana: votar é uma responsabilidade que não pode ser abandonada à indiferença, ao desencanto com a política ou à manipulação daqueles que pretendem transformar a escolha eleitoral em instrumento de interesses particulares. Quando um pastor convoca os fiéis a refletir sobre o destino do país, não está apenas falando de eleições, mas da responsabilidade moral de cada cidadão diante da história.

A mensagem de Dom Zanonni recupera um princípio fundamental da Doutrina Social da Igreja Católica: a política, quando exercida como serviço ao bem comum, pode se tornar uma das mais elevadas expressões da caridade. Foi São Paulo VI quem consagrou essa compreensão ao reconhecer a importância da participação política na construção de uma sociedade mais justa. Afinal, as decisões tomadas pelos governantes não ficam restritas aos gabinetes de Brasília. Elas chegam às mesas das famílias, aos hospitais públicos, às escolas, aos locais de trabalho e à vida daqueles que dependem das políticas sociais para sobreviver com dignidade.

Contra a omissão e o desencanto

É por isso que o arcebispo rejeita a omissão como resposta à decepção com a política. Compreende-se o desencanto de quem acompanha escândalos, promessas não cumpridas, disputas pelo poder e discursos que nem sempre correspondem à realidade. Entretanto, abandonar a participação democrática não elimina os problemas. Ao contrário, pode abrir espaço para que outros decidam os rumos da sociedade sem que a vontade daquele cidadão seja representada nas urnas.

O voto em branco, a anulação do voto e a abstenção são escolhas permitidas pela legislação eleitoral, mas não produzem o mesmo efeito de uma escolha entre candidaturas. Na prática, os votos válidos determinam o resultado da eleição. É justamente nesse ponto que o apelo pastoral ganha força: quem deseja uma sociedade diferente precisa compreender que a democracia exige participação, discernimento e responsabilidade.

A Igreja não precisa indicar um candidato para cumprir sua missão profética. Precisa, antes, recordar que a política deve estar a serviço da pessoa humana, que a democracia não sobrevive sem participação e que a indiferença pode custar caro aos mais vulneráveis.

Rostos humanos por trás de cada voto

Dom Zanonni também amplia o horizonte da reflexão ao recordar os aposentados, os trabalhadores, as crianças, os jovens, as famílias pobres e todos aqueles que precisam dos serviços públicos para viver. Sua mensagem não se limita a uma discussão abstrata sobre democracia. Ela apresenta rostos humanos, necessidades concretas e vidas que podem ser profundamente afetadas pelas decisões políticas.

Quem está por trás do voto

Pensar nos aposentados significa refletir sobre a previdência e a proteção social.

Pensar nos trabalhadores significa considerar emprego, renda e condições dignas de vida.

Pensar nas crianças e nos jovens significa defender educação de qualidade, oportunidades e perspectivas de futuro.

Pensar nos enfermos significa reconhecer a importância do Sistema Único de Saúde e do acesso aos medicamentos.

Pensar nas famílias vulneráveis significa compreender que a pobreza não pode ser tratada como uma fatalidade nem a desigualdade como algo natural.

O arcebispo inclui nessa reflexão as comunidades quilombolas, os povos indígenas e a preservação da casa comum. Ao fazê-lo, aproxima sua mensagem das preocupações sociais e ambientais que integram o pensamento cristão contemporâneo. A defesa da vida não pode ser reduzida a uma palavra de ordem utilizada durante as campanhas eleitorais. Ela precisa se traduzir em compromisso com a dignidade de todas as pessoas, com a proteção dos mais vulneráveis e com a responsabilidade de preservar o meio ambiente para as próximas gerações.

Nesse sentido, o apelo de Dom Zanonni nos recorda que a fé cristã não pode permanecer indiferente diante das injustiças sociais. O Evangelho de Jesus Cristo não é um convite à passividade diante do sofrimento humano. Ao contrário, é um chamado permanente à solidariedade, à fraternidade e à construção de uma sociedade na qual a dignidade de cada pessoa seja respeitada.

Liberdade de consciência e informação responsável

Isso não significa transformar a Igreja em instrumento de qualquer partido ou subordinar a consciência dos fiéis a uma orientação eleitoral obrigatória. O voto é livre e secreto, e cada cidadão deve decidir segundo sua consciência. O papel de uma liderança religiosa é oferecer princípios éticos que ajudem as pessoas a avaliar as propostas, os comportamentos e os compromissos daqueles que disputam o poder.

Por isso, merece destaque a orientação do arcebispo para que os eleitores se informem, comparem propostas, verifiquem os fatos e não aceitem ameaças ou pressões. Em tempos de desinformação, notícias falsas e manipulação das emoções, a consciência política exige também responsabilidade no consumo e no compartilhamento de informações. Não basta votar movido pelo medo, pela raiva ou pela propaganda. É necessário examinar a realidade, distinguir fatos de boatos e avaliar quais projetos oferecem melhores respostas aos desafios nacionais.

A democracia brasileira precisa de cidadãos capazes de pensar criticamente, respeitar as diferenças e compreender que nenhuma candidatura está acima da Constituição. A soberania nacional, os direitos sociais, as instituições democráticas e as liberdades fundamentais não devem ser tratados como questões secundárias. São elementos essenciais para que o Brasil continue sendo uma sociedade na qual a divergência política possa existir sem ameaças à convivência democrática.

Um chamado à responsabilidade histórica

O pronunciamento de Dom Zanonni, portanto, não deve ser entendido apenas como uma manifestação religiosa às vésperas de uma eleição. É um chamado à responsabilidade histórica. Seu alcance está na tentativa de despertar consciências, especialmente entre aqueles que, decepcionados com a política, cogitam desistir de participar das decisões que afetam suas próprias vidas e as das futuras gerações.

Quando o pastor recorda que o futuro de milhões de brasileiros depende das escolhas feitas no presente, ele nos convida a superar o individualismo e a reconhecer a dimensão coletiva do voto. A decisão de cada eleitor é pessoal, mas suas consequências alcançam toda a sociedade. É nessa relação entre liberdade individual e responsabilidade coletiva que a democracia encontra uma de suas bases mais importantes.

Como cidadão e articulista, considero que a palavra de uma liderança religiosa ganha maior relevância quando não se limita a defender interesses institucionais, mas se coloca a serviço da dignidade humana, da justiça social e da liberdade de consciência. A missão pastoral não consiste em substituir a consciência do eleitor, mas em despertá-la para que ninguém escolha por ignorância, por medo ou por pressão.

Ao invocar Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, Dom Zanonni conclui sua mensagem com uma esperança que é, ao mesmo tempo, espiritual e social: a construção de uma sociedade justa, na qual todos tenham vida em abundância, como ensinou Jesus. Essa esperança exige mais do que orações. Exige compromisso, participação e disposição para defender a dignidade humana em todas as circunstâncias.

No próximo domingo, cada brasileiro terá diante de si uma decisão que ultrapassa os limites de sua preferência pessoal. A escolha será feita individualmente, mas seus efeitos serão compartilhados por milhões de pessoas. Que cada eleitor possa votar com liberdade, consciência e responsabilidade, sem abrir mão da própria capacidade de pensar e sem esquecer daqueles cuja voz raramente encontra espaço nos centros de poder.

A Igreja não precisa indicar um candidato para cumprir sua missão profética. Precisa, antes, recordar que a política deve estar a serviço da pessoa humana, que a democracia não sobrevive sem participação e que a indiferença pode custar caro aos mais vulneráveis. É esse o sentido mais profundo do apelo de Dom Zanonni: despertar o povo de Deus para a responsabilidade de construir um Brasil mais justo, fraterno e solidário.

Tenho a certeza de que a voz do pastor será ouvida. Não porque os fiéis devam renunciar à própria consciência, mas porque palavras que convocam à responsabilidade, à defesa da democracia e ao compromisso com os mais necessitados encontram ressonância em todos aqueles que ainda acreditam na força da solidariedade e na possibilidade de transformar a realidade. Que Nossa Senhora Aparecida ilumine o povo brasileiro e que a escolha de cada cidadão seja expressão de liberdade, consciência e esperança no futuro do Brasil.

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Padre Carlos

Teólogo, filósofo e articulista