Política e Resenha

E se Moraes estiver certo?

QUANDO UM MINISTRO DO SUPREMO PRECISA IR À TRIBUNA PARA SE DEFENDER

Padre Carlos

Há momentos em que a política deixa de ser apenas disputa entre grupos e passa a ser um teste de resistência das instituições. O que o Supremo Tribunal Federal vive nesta terça-feira, 15 de setembro de 2026, é um desses momentos.

Antes da sessão marcada para hoje, o ministro Alexandre de Moraes apresentou uma defesa de 44 páginas ao presidente do STF, Edson Fachin. Nela, rejeita integralmente as acusações relacionadas ao caso Banco Master, sustenta que a investigação é juridicamente inválida, aponta motivação político-eleitoral e afirma que está diante de uma tentativa de vingança relacionada às condenações decorrentes do 8 de janeiro. Moraes pede, ao final, o arquivamento da apuração. (CNN Brasil)

Mas há algo maior acontecendo.

Hoje não estará em julgamento apenas Alexandre de Moraes. A própria credibilidade do Supremo estará, de alguma maneira, sentada naquela cadeira invisível onde o cidadão brasileiro costuma colocar a sua esperança de Justiça.

E é justamente por isso que precisamos respirar fundo antes de escolher um lado.

Não se trata de gostar ou não de Alexandre de Moraes. Não se trata de ser lulista ou bolsonarista. Não se trata de defender a esquerda contra a direita ou a direita contra a esquerda.

Trata-se de uma pergunta muito mais incômoda:

as instituições brasileiras conseguem investigar um ministro do Supremo sem transformar a investigação em instrumento de vingança política — e conseguem também impedir que a toga seja utilizada como escudo contra qualquer investigação legítima?

Essa é a pergunta que importa.

O homem por trás da toga

Alexandre de Moraes tornou-se, nos últimos anos, uma das figuras mais poderosas e controversas da República.

Para uma parcela da sociedade, ele representa a resistência democrática diante da tentativa de ruptura institucional de 8 de janeiro.

Para outra parcela, tornou-se símbolo de um Supremo que teria ultrapassado limites e concentrado poderes excessivos.

É impossível ignorar que as duas percepções existem.

E talvez seja justamente por isso que este momento exija mais serenidade, e não menos.

Moraes afirma agora que o processo contra ele seria uma espécie de continuação da disputa política iniciada nos episódios de 8 de janeiro. Em sua defesa, chega a dizer que a tentativa de golpe não teria terminado naquele dia, mas apenas mudado de método. (CNN Brasil)

É uma acusação gravíssima.

Mas também seria grave transformar essa acusação, automaticamente, em verdade absoluta.

Uma democracia madura não funciona assim.

Democracia não é acreditar cegamente no nosso lado. Democracia é aceitar que até aqueles de quem gostamos precisam responder às perguntas difíceis.

O caso Banco Master não pode ser tratado como guerra de torcidas

O caso envolve mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, documentos apreendidos na investigação e uma relação contratual envolvendo o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

Segundo informações divulgadas pela imprensa, o material analisado pela Polícia Federal contém mensagens nas quais Vorcaro aparece buscando contato com Moraes e tratando de questões relacionadas à investigação. Há também referência a um contrato de R$ 131 milhões entre o banco e o escritório da esposa do ministro. Moraes nega irregularidades e contesta a validade e a interpretação do material. (Agência Brasil)

É exatamente aqui que precisamos separar duas coisas.

Indício não é prova.

Suspeita não é condenação.

Investigação não é sentença.

Mas também é preciso reconhecer o outro lado:

autoridade não é imunidade.

Se houver dúvida razoável, que seja investigada.

Se não houver crime, que isso seja demonstrado.

Se houver irregularidade na investigação, que ela seja corrigida.

Se houver abuso, que o responsável responda.

Essa deveria ser a regra para todos.

Para o cidadão comum.

Para um deputado.

Para um presidente da República.

Para um banqueiro.

E, sobretudo, para um ministro do Supremo Tribunal Federal.

A grandeza de uma instituição aparece quando ela investiga os seus próprios homens

Existe uma tentação muito perigosa na política brasileira: acreditar que determinada instituição só merece ser respeitada quando toma decisões que nos agradam.

Isso é um erro.

O Supremo precisa ser forte quando protege a democracia.

Mas precisa ser igualmente forte quando alguém questiona a conduta de um de seus ministros.

Não existe contradição nisso.

Ao contrário.

É justamente assim que uma instituição se fortalece.

O próprio STF está diante de uma situação absolutamente incomum. A sessão de hoje analisará a possibilidade de abertura de investigação contra Moraes, com Edson Fachin na relatoria. O ministro será parte interessada e, portanto, não participará da votação. Há ainda uma disputa institucional envolvendo André Mendonça, que conduziu a apuração questionada por Moraes. (UOL Notícias)

Ou seja: não estamos diante de um episódio trivial.

Há um conflito dentro do próprio Supremo.

E conflitos institucionais dessa magnitude precisam ser tratados com transparência, devido processo legal e absoluta serenidade.

E se Moraes estiver certo?

Essa pergunta também precisa ser feita.

E se o ministro estiver realmente sendo vítima de uma operação política?

E se parte das acusações estiver sendo utilizada como instrumento de revanche contra aquele que foi um dos protagonistas da reação institucional aos atos antidemocráticos de 8 de janeiro?

Seria igualmente perigoso permitir que uma investigação contaminada por interesses políticos fosse utilizada para destruir reputações e enfraquecer a democracia.

Moraes sustenta justamente isso.

Sua defesa afirma que o procedimento seria uma tentativa de vingança relacionada às condenações da trama golpista e questiona a própria legalidade da investigação. (Folha de S.Paulo)

Se for assim, o STF tem obrigação de reconhecer.

Mas há uma segunda pergunta, talvez ainda mais importante.

E se Moraes estiver errado?

Aqui está o ponto que muitos preferem não enfrentar.

E se existirem elementos que mereçam investigação?

E se houver dúvidas legítimas sobre sua relação institucional com pessoas investigadas?

E se determinados procedimentos precisarem ser esclarecidos?

Nesse caso, o fato de Alexandre de Moraes ser ministro do Supremo não pode encerrar a discussão.

A toga não pode ser uma parede atrás da qual a República deixa de enxergar.

Da mesma forma que uma investigação não pode ser uma arma usada para atingir um magistrado.

É exatamente por isso que o Brasil precisa de instituições independentes.

Não de instituições que protejam amigos.

Não de instituições que persigam inimigos.

Mas de instituições capazes de suportar a luz.

O cidadão brasileiro está cansado de escolher entre dois extremos

Talvez essa seja a parte mais dolorosa de tudo.

Enquanto Brasília trava suas guerras de poder, milhões de brasileiros observam de longe.

O cidadão não quer saber apenas quem ganhou a discussão no X.

Ele quer saber se a Justiça é justa.

Quer saber se a Polícia Federal pode investigar quem precisa ser investigado.

Quer saber se um ministro do Supremo pode ser questionado.

Quer saber se uma acusação pode ser feita sem prova.

Quer saber se uma prova pode ser escondida.

Quer saber se existe uma regra para o poderoso e outra para o cidadão comum.

No fundo, a pergunta é simples:

a lei vale para todos?

Se a resposta for sim, o Brasil ainda tem um caminho.

Hoje, o STF terá uma oportunidade histórica

A sessão desta terça-feira não deveria ser transformada em espetáculo.

Não deveria ser comemorada como uma vitória da direita.

Nem tratada como uma vitória da esquerda.

Porque, se houver vitória, ela precisa ser da instituição.

E se houver derrota, não poderá ser da democracia.

O Supremo tem diante de si uma oportunidade rara: mostrar que é suficientemente forte para investigar quando necessário, suficientemente prudente para rejeitar uma investigação sem fundamento e suficientemente transparente para convencer a sociedade de que não está protegendo ninguém por amizade, ideologia ou conveniência.

Nem Alexandre de Moraes está acima da Constituição.

Nem seus adversários estão acima da Constituição.

Nem o STF está acima da Constituição.

E talvez seja justamente essa a maior lição deste momento.

Não precisamos de santos de toga.

Precisamos de magistrados submetidos à lei.

Não precisamos de heróis políticos.

Precisamos de instituições.

Não precisamos escolher entre Moraes e seus acusadores.

Precisamos escolher entre Estado de Direito e a lógica da vingança.

Hoje, antes de apontarmos o dedo para qualquer lado, deveríamos lembrar de uma coisa que parece simples, mas que a política brasileira frequentemente esquece:

a Justiça só é verdadeiramente Justiça quando consegue fazer aquilo que é correto mesmo quando o resultado desagrada aos nossos amigos.

É isso que o Brasil espera do Supremo Tribunal Federal.

É isso que a democracia exige.

E é isso que Alexandre de Moraes, seus críticos e seus colegas de Corte precisam compreender.

Porque, no final, não será apenas o ministro que estará sendo julgado pela História. Será a capacidade da República de fazer Justiça sem medo, sem vingança e sem torcida.

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