
Por Padre Carlos
Em tempos de política líquida, onde mandatos se dissolvem em selfies e promessas evaporam como orvalho ao sol, recordar figuras como Elquisson Dias Soares (Anagé, 27 de junho de 1940) não é mero exercício de nostalgia. Trata-se de um imperativo ético. Soares não foi apenas um deputado; foi um oposicionista estrutural, um homem que transformou a prisão pelo AI-5 em capital moral, a competência jurídica em arma legislativa e o amor pela sua terra em obras concretas que ainda hoje irrigam campos e formam mentes no Sudoeste da Bahia.

Nascido em origins humildes — o “menino de Vila Nova”, como o batizou a bela biografia de Durval Menezes —, trabalhou como balconista de padaria e contínuo de banco antes de formar-se em Direito pela Cândido Mendes, no Rio de Janeiro, em 1970. Ali, no coração do endurecimento ditatorial, tornou-se ativista estudantil, pagando com a prisão o preço da resistência ao golpe de 1964. Essa cicatriz não o amargurou; forjou-o.
De volta ao Sudoeste, estabeleceu-se em Vitória da Conquista como advogado e agropecuarista. Em 1972, o MDB — o único partido de oposição permitido — precisava de nomes limpos e competentes no interior. Elquisson elegeu-se vereador (1973–1975) e, logo depois, deputado estadual (1975–1979). Na Assembleia Legislativa da Bahia, dominada pela ARENA, fez o impensável: foi eleito três vezes Melhor Deputado do Estado (1975, 1976 e 1978) por uma Assembleia de maioria governista. Não era prêmio de consolação; era reconhecimento forçado de que, mesmo na minoria, sua oratória, rigor fiscalizador e domínio técnico eram irresistíveis.
Em 1979, já no embalo da abertura lenta e gradual, elegeu-se deputado federal pelo PMDB, reelegendo-se em 1982. Em Brasília, continuou a mesma linha: vice-líder da oposição, relator da CPI das Cheias do Rio São Francisco (cujo relatório virou Resolução da Câmara), relator da Comissão Especial do novo Código Civil — imagine um deputado de oposição moldando o Direito Privado brasileiro! — e um dos poucos que viajaram a Europa para ouvir exilados e trazer suas vozes ao debate da Anistia.
Mas o que torna Elquisson Soares singular não foi só Brasília. Foi a capacidade de trazer Brasília para o Sudoeste. Duas obras resumem seu legado:
- A Barragem Deputado Elquisson Soares, em Anagé, que garantiu segurança hídrica numa região castigada pela seca.
- A luta pioneira pela criação da Universidade Federal de Vitória da Conquista — semente plantada nos anos 1980 e que germinou décadas depois, provando que visão de longo prazo vence vontade curta.
A ele também se deve o municipalismo combativo: defendeu a emancipação de Anagé, Barra do Choça, Caatiba, Belo Campo e Cândido Sales — estratégia genial para romper o coronelismo e fortalecer bases democráticas no interior.
Para que o leitor visualize a escalada impressionante dessa trajetória, eis a cronologia sintetizada:
Tabela 1: Cronologia dos Mandatos Eletivos e Cargos Chave de Elquisson Soares
| Período | Cargo/Mandato | Local | Partido Principal Partido | Destaques da Atuação |
|---|---|---|---|---|
| 1973–1975 | Vereador | Vitória da Conquista-BA | MDB | Início da oposição municipal. |
| 1975–1979 | Deputado Estadual | ALBA (Salvador-BA) | MDB | Líder/Vice-Líder da Minoria; Três vezes Melhor Deputado (1975, 1976, 1978). |
| 1979–1983 | Deputado Federal (1º Mandato) | Câmara Federal (Brasília) | PMDB | Vice-Líder; Relator da CPI das Cheias do São Francisco. |
| 1983–1987 | Deputado Federal (2º Mandato) | Câmara Federal (Brasília) | PMDB | Vice-Presidente da CCJ (1982); Relator do Código Civil. |
| 1987 | Presidente | CEASA/BA | – | Cargo executivo na área de abastecimento. |
E, para não deixar dúvida sobre a diversidade de sua atuação, eis as principais frentes:
Tabela 2: Síntese das Principais Atribuições Legislativas e Políticas de Impacto
| Tipo de Atuação | Atribuição Específica | Período/Órgão | Relevância Histórica |
|---|---|---|---|
| Ativismo Cívico | Representante do Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA-BA) | Internacional (1979) | Missão à Europa para ouvir exilados – peça-chave na Lei da Anistia. |
| Fiscalização Federal | Relator da CPI das Cheias do Rio São Francisco | Câmara (1980–1981) | Resultado transformado em Resolução da Câmara – impacto multiestadual no Nordeste. |
| Direito e Legislação | Relator da Comissão Especial do Projeto do Código Civil | Câmara (1982 | Influência direta na reforma do Direito Privado brasileiro. |
| Desenvolvimento Hídrico | Idealização da Barragem Dep. Elquisson Soares | Anagé-BA | Segurança hídrica permanente para o Sudoeste. |
| Educação Superior | Defesa pioneira da Universidade Federal de Vitória da Conquista | Sudoeste Baiano | Visão que se concretizou décadas depois. |
| Política Regional | Emancipação de municípios (Anagé, Barra do Choça etc.) | Sudoeste Baiano | Descentralização do poder e fortalecimento da oposição democrática. |
Hoje, quando vereadores de Vitória da Conquista citam Elquisson Soares no plenário, o fazem quase sempre com o mesmo lamento: “Cadê a vontade política de antigamente?”. A frase revela tudo. Soares pertence àquela raça rara de políticos que não precisavam ser excepcionais para simplesmente existir — porque eram oposição num regime de exceção. E foram tão bons que até os algozes tiveram que aplaudir.
O Sudoeste Baiano deve a ele não apenas uma barragem e uma universidade, mas a própria consciência de sua força política. Elquisson Soares provou que um menino pobre de Anagé, preso pelo AI-5, pode, com estudo, coragem e trabalho, dobrar o sistema e deixar o nome gravado não em placa de bronze, mas na água que bebe e no saber que ensina.
Num Brasil que parece esquecer depressa demais seus melhores, resgatar Elquisson Soares é ato de higiene democrática. Porque, como disse o próprio, num de seus discursos lembrados até hoje: “A Bahia só será grande quando deixar de ser o Estado mais atrasado politicamente do Brasil”. Ele fez a parte dele. Agora é a nossa vez de não deixar que essa chama se apague.






