Política e Resenha

Emiliano José, 80 anos: o tempo como trincheira e a palavra como resistência

 

 

 

 

Há pessoas que não envelhecem: aprofundam-se. O tempo, nelas, não é desgaste — é acúmulo. Camada sobre camada de experiência, dor, coragem, lucidez. Emiliano José é assim. Um homem em quem os anos não pesam; significam.

No dia 5 de fevereiro de 1946, enquanto o mundo ainda respirava os escombros da Segunda Guerra Mundial e ensaiava promessas de liberdade, nascia Emiliano. Era o alvorecer de uma era contraditória: derrotava-se o nazifascismo, mas inaugurava-se a ameaça nuclear. A humanidade dava um passo à frente e outro à beira do abismo. Não é pouca coisa nascer nesse entretempo. Talvez por isso Emiliano tenha passado a vida inteira recusando simplificações — e enfrentando abismos com palavras, ideias e ação política.

Conheceu — grandes figuras da sua geração — grandes nomes da história. Revolucionários de estatura épica. Marighella. Lamarca. Prestes. Apolônio de Carvalho, o combatente de três mundos. Waldir Pires, com quem dividiu convivência, afeto e páginas escritas. Mas digo sem hesitação: Emiliano José pertence a essa constelação, ainda que jamais tenha buscado a ribalta.

Eis uma de suas marcas mais raras: a grandeza sem pose.
Se a luz incide sobre ele, é porque a luta assim exige — nunca por vaidade. Emiliano não corre atrás do palco; ele permanece no front. E, quando o palco vem, ele o ocupa com serenidade, como quem sabe que protagonismo é circunstância, não vocação.

Sua trajetória atravessa o que o Brasil teve de mais duro. Prisões, tortura, censura, processos militares, liberdade condicional. Forte do Barbalho. Penitenciária Lemos Brito. Galeria F. Anos em que o corpo era vigiado e a palavra, suspeita. Condenado em três processos, somando oito anos, saiu para a rua ainda sob o peso da vigilância — e com um filho prestes a nascer. Poucos momentos testam tanto um homem quanto esse: quando a história cobra coragem e a vida pede cuidado.

Ele não recuou.

Deu aulas à noite, no Mosteiro de São Bento, para jovens da periferia de Salvador. Entrou nas redações como foca — e saiu jornalista respeitado. Tribuna da Bahia, Jornal da Bahia, Estadão, depois a imprensa alternativa: Movimento, Em Tempo. Quando os limites da imprensa tradicional apertavam, Emiliano alargava os próprios caminhos. Porque jornalismo, para ele, nunca foi neutralidade confortável: foi posição ética.

A militância política seguiu, mesmo quando a política era quase clandestina. Campanhas, articulações, encontros discretos, esperança teimosa. Com a Anistia de 1979, as portas se abriram — e Emiliano atravessou por elas sem deslumbramento. Vieram as disputas eleitorais, os mandatos: vereador, deputado estadual, deputado federal. Não para abandonar a palavra, mas para armá-la de institucionalidade.

E como se não bastasse o militante e o parlamentar, há o intelectual. Tardio apenas no calendário, jamais no espírito. Professor da Faculdade de Comunicação da UFBA por 25 anos. Mestre, doutor. Formador de gerações. Um homem que acreditou — contra o obscurantismo — que pensar é um ato político.

Depois, os livros. Mais de vinte. Biografias, ensaios, memória, jornalismo histórico. Lamarca, o Capitão da Guerrilha abriu uma trilha que nunca mais se fechou. Escrever, em Emiliano, é um gesto de reparação histórica. É devolver nomes aos silenciados. É disputar a narrativa com quem sempre tentou sequestrá-la.

Em 2021, a Academia de Letras da Bahia reconheceu o que o tempo já havia consagrado. Não como prêmio, mas como consequência. Ninguém chega ali por acaso.

Chegar aos 80 — convida à reflexão. Vivemos uma era que desconfia da complexidade, que prefere slogans a pensamento, ruído a argumento. Emiliano faz o caminho inverso. Como Edgar Morin, como Marilena Chauí, ele nos lembra que a maturidade pode ser território de criação e rebeldia. Que a velhice, longe de ser recolhimento, pode ser insubordinação lúcida.

Há nele algo profundamente gramsciano: um homem comum, de convicções profundas. Convicções que não se negociam. Não por dogma, mas por fidelidade a uma ética construída na escassez, no trabalho duro, na dor coletiva. Emiliano nunca se deslumbrou com os poucos minutos de fama. Sempre soube de onde veio — e por quem luta.

Por isso, esta não é apenas uma homenagem de aniversário. É um ato de reconhecimento político e humano. Emiliano José não é apenas parte da história da esquerda brasileira, da resistência à ditadura, do jornalismo crítico, da vida parlamentar comprometida com o povo. Ele é um lembrete vivo de que é possível atravessar décadas sem trair princípios, sem abrir mão da dúvida, sem abdicar da esperança.

Em tempos de cinismo e amnésia, Emiliano é memória ativa.
Em tempos de ódio raso, é pensamento profundo.
Em tempos de pressa, é permanência.

Que seus anos sigam sendo trincheira.
Que sua palavra siga sendo farol.
E que saibamos — nós, leitores, militantes, cidadãos — estar à altura do legado que ele constrói, dia após dia, com a paciência dos que sabem que a história é longa, mas a dignidade é urgente.

Feliz vida, Emiliano José.
O tempo, contigo, aprendeu a resistir.