
Por Padre Carlos
Há acontecimentos que, à primeira vista, parecem apenas curiosos, quase anedóticos. Um homem embriagado entra numa lagoa, fica atolado na lama, mobiliza vigilantes, Prefeitura, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros. Pronto: matéria encerrada, nota oficial publicada, vida que segue. Mas não. Alguns fatos, justamente por sua aparente banalidade, funcionam como espelhos incômodos da cidade que somos e das responsabilidades que insistimos em empurrar para debaixo da lama.
O episódio ocorrido na Lagoa das Bateias, na tarde de 18 de janeiro, não é apenas uma ocorrência inusitada. Ele revela, de forma crua, três dimensões que precisam ser debatidas com seriedade: o uso desordenado dos espaços públicos, a negligência individual travestida de imprudência casual e a permanente necessidade de o poder público agir como último anteparo contra o risco, mesmo quando o risco foi voluntariamente assumido.
Comecemos pelo óbvio que, no Brasil, quase sempre precisa ser repetido: a Lagoa das Bateias não é local de banho. Não é praia, não é piscina natural, não é balneário improvisado. É um espaço ambientalmente sensível, com vegetação aquática, áreas de lama profunda e variações no nível da água. Ainda assim, não são raros os registros de pessoas que se aproximam do espelho d’água como se estivessem diante de um convite ao lazer despreocupado. O que leva alguém, ainda mais sob efeito de álcool, a ignorar limites tão claros?
Aqui entra a segunda camada do problema: a cultura da irresponsabilidade individual. A embriaguez não é detalhe irrelevante. Ela agrava o risco, reduz a capacidade de julgamento e expõe não apenas o indivíduo, mas todos os que precisarão agir para salvá-lo. O vigilante do parque, ao tentar ajudar, colocou-se em situação de perigo. Pessoas que estavam nas proximidades se envolveram. Bombeiros e policiais foram acionados. Recursos públicos, tempo, energia e vidas potencialmente em risco foram mobilizados para reparar uma decisão absolutamente evitável.
E é aqui que o debate fica desconfortável, mas necessário. Até que ponto a sociedade deve naturalizar que escolhas pessoais imprudentes gerem automaticamente uma cadeia de custos coletivos? Evidentemente, ninguém defende a omissão do Estado diante de uma vida em perigo. O resgate foi correto, necessário e digno de reconhecimento. Mas isso não pode nos impedir de fazer a pergunta incômoda: por que seguimos tratando o espaço público como território sem regras, onde o “deixa disso” substitui a responsabilidade?
A nota da Prefeitura cumpre seu papel institucional ao orientar a população e reforçar que o local oferece risco de afogamento e de aprisionamento na lama, especialmente com o volume de água baixo. Mas talvez seja hora de ir além das notas e advertências formais. Sinalização mais ostensiva, campanhas educativas permanentes e, sim, algum nível de fiscalização mais rigorosa podem ser necessários. Não para punir por punir, mas para proteger vidas antes que o improviso vire tragédia.
Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer e valorizar o papel do servidor público que atua na ponta. O vigilante da Lagoa das Bateias agiu com senso de dever, buscou ajuda, acionou os órgãos competentes e evitou que o episódio tivesse um desfecho fatal. Esse tipo de atuação, silenciosa e muitas vezes invisível, sustenta o funcionamento da cidade muito mais do que discursos grandiloquentes ou postagens oficiais.
Por fim, o episódio da Lagoa das Bateias nos devolve uma pergunta que insiste em emergir em diferentes contextos: que tipo de relação estamos construindo com os espaços comuns da cidade? Lugares públicos não são terra de ninguém. São, ao contrário, territórios de responsabilidade compartilhada. Quando alguém transforma imprudência em aventura e o espaço coletivo em palco de risco, toda a cidade acaba atolada junto.
Entre a lama e a água rasa, Vitória da Conquista teve um alerta. Que ele não seja tratado como mera curiosidade de fim de semana. Porque, da próxima vez, pode não haver nota à imprensa. Pode haver silêncio, luto e arrependimento. E aí, como sempre, será tarde demais para avisar que não era lugar de banho.




