
Por Padre Carlos
O leitor pode fechar os olhos por um segundo e sentir o peso dessa pergunta: quantos morreram em 11 de setembro de 2001?
Foram 2 977 pessoas mortas diretamente nos atentados contra o World Trade Center, o Pentágono e um campo na Pensilvânia, sem contar os milhares de feridos que carregaram sequelas físicas e emocionais pelo resto de suas vidas.
Esses números — quase três mil vidas — gravaram-se nas páginas da história. Tornaram-se um símbolo universal de vida perdida. E não por acaso: eram, em sua maioria, trabalhadores anônimos, pais e mães de família, estudantes, técnicos, pilotos e passageiros que, naquele dia, foram arrancados da rotina, do sorriso, dos planos.
Mas acontece que, três décadas depois, a lógica dos noticiários e das potências do mundo parece ter um filtro quebrado.
No último sábado, ataques militares lançados por forças dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã deixaram ao menos 201 mortos e cerca de 747 feridos em território iraniano.
Entre elas, crianças atingidas em uma escola de meninas no sul do país — um detalhe que deveria nos atingir no fundo do olhar e não apenas como mais um número.
Há quem diga, implicitamente, que 201 é “menos” que 2 977, e que a tragédia — portanto — ocupa um lugar diferente na escala de importância moral.
Se assim pensarmos, estamos fisicamente juntos — mas espiritualmente longe.
Não quero, aqui, entrar no terreno da geopolítica fria em que cada morte ganha etiqueta de conveniência. Quero falar daquilo que nos une como seres humanos:
- o primeiro beijo da filha que nunca será esquecido;
- a caminhada de um pai que perdeu o filho;
- o silêncio vazio na mesa onde faltará uma voz.
Essas realidades são idênticas em Nova York, Teerã ou qualquer outro lugar do mundo.
Quando o noticiário — e, pior, a retórica política — instrumentaliza tragédias para justificar posições, interesses ou narrativas, perdemos algo essencial: a humanidade compartilhada entre todos os povos.
Permita-me um sussurro direto ao leitor:
Quando uma notícia fala de mortos “de um lado” como se fosse menos digna de lágrimas, estamos cedendo a um mal silencioso: a ideia de que vidas só valem quando estão do “nosso” lado da cerca.
E isso é profundamente errado.
Do outro lado — não importa se se chama “inimigo” ou “outro” — há mães que choram, há histórias que não serão contadas, há futuro que foi interrompido.
Comparar tragédias por número é como tentar medir a dor em gramas — impossível e, mais que isso, desumano.
Cada vida perdida em 11 de setembro mexeu com o mundo porque tocou uma narrativa global sobre vulnerabilidade e medo.
Por que, então, não faz o mesmo quando vidas são ceifadas em outras partes do planeta?
A resposta está no enquadramento que damos aos fatos. Quando as mortes nos são próximas — geograficamente, culturalmente, politicamente — tendemos a sentir mais. Isso é humano. Mas a ética exige que nos recusemos a limitar a empatia a uma bolha identitária restrita.
Perdemos o que nos distingue dos instintos mais primitivos: a compaixão universal.
O leitor sente isso — e talvez por isso mesmo a pergunta inicial ainda ecoa:
“Por que lembramos mais de umas mortes do que de outras?”
Porque admitir que todas as vidas têm igual valor é um desafio moral que muitos atores poderosos não querem enfrentar.
Seremos nós, leitores e cidadãs, que permitiremos essa desigualdade moral persistir?
A história de setembro de 2001 nos ensina que cada vida importa — e que a morte de qualquer ser humano deveria ser um espelho diante do qual paramos para refletir sobre nossa responsabilidade coletiva.
Isso não significa fingir que os contextos são simples. Significa, sim, que não hierarquizamos vidas por conveniência política, cor, religião ou geografia.
No fim, quando apagamos nomes, números e rostos, resta apenas uma pergunta: que mundo estamos construindo — um que chora por todos? ou um que valoriza apenas alguns?
E essa pergunta é mais importante do que qualquer manchete.




