
Padre Carlos
Desde 1933, a Exposição Agropecuária de Vitória da Conquista não é apenas um evento anual; é um rito coletivo, um espelho da vocação produtiva do Sudoeste baiano, um verdadeiro patrimônio histórico de Conquista. Ao longo de décadas, o Parque Teopompo de Almeida transformou-se em ponto de convergência de produtores rurais, empresários, estudantes, investidores e famílias inteiras que ali encontravam negócios, inovação tecnológica e celebração.
O dia 5 de junho de 2024 entrou para essa cronologia afetiva como um marco de resistência. Depois do hiato provocado pela pandemia e agravado por crises administrativas, a 53ª edição reacendeu a chama de uma tradição quase centenária. Não foi apenas a volta de uma feira; foi a retomada de um símbolo. Os currais voltaram a pulsar, os leilões retomaram cifras expressivas, os estandes exibiram genética de ponta, máquinas agrícolas, soluções logísticas e serviços financeiros. A cidade respirou novamente o ar de uma economia em movimento.
Mas o que parecia um recomeço sólido começa, outra vez, a dar sinais de fragilidade. A cooperativa organizadora, pilar institucional do evento, mergulhou em um processo de erosão institucional preocupante. Denúncias graves de assédio vieram à tona, exigindo apuração rigorosa e ética. Ao mesmo tempo, disputas internas dividiram associados em dois blocos antagônicos: os que defendem a continuidade e fortalecimento da Exposição e os que, por divergências políticas ou pessoais, resistem à sua realização nos moldes tradicionais.
Esse racha não é apenas uma crise interna. É um fator de paralisia. Quando a instituição responsável pelo maior evento econômico do calendário regional entra em conflito permanente, o impacto ultrapassa os muros da cooperativa e atinge hotéis, restaurantes, transportadoras, comerciantes, prestadores de serviço e centenas de trabalhadores temporários. Cada reunião inconclusiva, cada embate jurídico ou administrativo, repercute diretamente na economia local.
É aqui que emerge a questão mais incômoda: onde está a classe política de Vitória da Conquista? O silêncio ensurdecedor que ecoa na Câmara e nos gabinetes dos deputados revela uma inércia legislativa difícil de justificar. Não se trata de interferir indevidamente em entidade privada, mas de compreender que a Exposição transcende interesses corporativos. Ela movimenta milhões em negócios, estimula cadeias produtivas e fortalece a imagem da cidade como polo regional do agronegócio e da logística.
No ano passado, a ausência do evento foi um golpe simbólico e financeiro. Perdeu-se receita, visibilidade e oportunidades. Não foi apenas um fim de semana sem shows ou leilões; foi uma lacuna no calendário econômico. Em 2024, com apoio decisivo da Prefeitura em infraestrutura, saúde e mobilidade, demonstrou-se que a feira é viável quando há articulação institucional. O poder público mostrou que, quando quer, consegue criar condições para que o evento aconteça com segurança e eficiência.
Por que, então, diante de novos sinais de instabilidade, prevalece a vacuidade política? Por que não se veem mesas de mediação, audiências públicas, articulações formais entre Executivo, Legislativo e as forças produtivas? A omissão, neste caso, não é neutralidade; é cumplicidade com a decadência.
A Exposição Agropecuária não pode ser refém de disputas internas, tampouco de vaidades pessoais. Ela é parte estruturante da identidade econômica de Vitória da Conquista. Representa intercâmbio tecnológico, difusão de conhecimento, fortalecimento da agropecuária regional e geração de emprego e renda. Reduzi-la à categoria de “festa” é desconhecer sua função estratégica como polo de negócios e vitrine de inovação.
A pergunta que precisa ecoar nos corredores do poder e nas rodas de conversa da sociedade civil é simples e direta: vamos deixar acontecer de novo? Vamos assistir, impassíveis, à possibilidade de mais um cancelamento, mais um ano de perdas acumuladas, mais um capítulo de desgaste institucional?
A história de Conquista é marcada por superações. A cidade consolidou-se como centro de saúde, educação e comércio regional porque soube, em momentos decisivos, agir com visão estratégica. Agora, exige-se o mesmo espírito. É urgente que associações empresariais, entidades de classe, políticos, prefeita e lideranças regionais assumam papel ativo na construção de uma solução. Mediação, transparência e compromisso com o interesse coletivo devem substituir o ruído das disputas internas.
Entre o passado de glórias e a inércia do presente, há um futuro em disputa. E esse futuro não pode ser decidido pela fragmentação ou pela omissão. A Exposição Agropecuária é mais que um evento; é um ativo econômico e simbólico. Permitir que ela definhe por falta de articulação seria um erro histórico.
Vitória da Conquista precisa escolher: preservar e fortalecer seu patrimônio ou assistir, em silêncio, à sua própria diminuição.




