Política e Resenha

Gatilhos da Memória de uma vida

 

 

 

Às vezes basta um cheiro esquecido no tempo.

Um aroma vindo de longe, trazendo a infância dobrada no bolso da lembrança — como se a vida abrisse, de repente, uma janela para um ontem que nunca deixou de existir.

Outras vezes, é uma frase solta, dita no meio de uma conversa qualquer, mas que encontra um eco antigo dentro de mim.

Um olhar.

Uma canção antiga que não se importa com calendários, que entra sem pedir licença e acende, no instante, um universo inteiro na minha alma.

 

Os gatilhos da minha memória não obedecem relógios.

Surgem como quem vem visitar, de mansinho, nos intervalos da rotina.

Eles nascem de saudades que não pedi, de alegrias que chegam inesperadas, de dores que insistem em morar comigo, de belezas tão grandes que o coração, sem saber o que fazer, se vê obrigado a transformá-las em palavras.

Às vezes vêm de um encontro inesperado, desses que parecem ter sido escritos muito antes de acontecer — e, quando chegam, deixam a alma encantada por dias.

 

Há dias em que é a solidão que me escreve.

Em outros, é o amor que transborda e, não cabendo mais em mim, escorre pelas margens do papel.

Às vezes é um pôr do sol que traduz, em cores e silêncios, tudo o que eu sentia e não sabia nomear.

Ou uma frase lida num livro esquecido, dita por alguém distraído, ou ouvida num sonho — e que só faz sentido para quem está pronto para sentir.

Como aquele fado antigo que me sussurra, com voz de segredo: “nem às paredes eu confesso”.

 

O menino Bel é assim.

Ele carrega nos olhos a mania de tocar o invisível.

É o sopro que chega no momento certo, o recado que vem da alma, a resposta que desce das estrelas.

Bel é quando a vida pede para ser escrita.

E, diante desse chamado, o coração — sempre obediente — pega a caneta e se deixa levar.