Quando um Campo de Futebol se Torna Palco de Execução
Na última terça-feira (5), mais uma vez Jequié acordou com o eco de disparos e o grito silencioso de mais uma família destroçada. Um jovem foi perseguido, alvejado e executado a tiros em um campo de futebol no bairro Joaquim Romão. Este é o quinto homicídio registrado na cidade em menos de três dias, numa escalada de violência que transformou lugares que deveriam ser de lazer e convivência em cenários de horror. A vítima, cujo corpo foi removido para o Instituto Médico Legal de Jequié, representa mais um número numa estatística que envergonha não apenas a cidade, mas todo o Brasil.
Este episódio simboliza perfeitamente o que Jequié se tornou: uma cidade onde nem mesmo os espaços de recreação estão livres da onda de violência que vem assolando o município desde o início do ano. Diante dessa realidade devastadora, que transformou uma cidade de tradição cultural e econômica numa zona de guerra urbana, surge a pergunta inevitável: a quem devemos responsabilizar por este caos?
A resposta, embora complexa, aponta para um fracasso sistêmico que abrange múltiplas esferas de poder e responsabilidade.
O Paradoxo das Duas Cidades: Jequié e Vitória da Conquista
Para compreender a dimensão da tragédia jequieense, basta olhar para sua vizinha regional, Vitória da Conquista. Enquanto Jequié consolidou-se como a segunda cidade mais violenta do Brasil, com uma taxa alarmante de 91,9 homicídios por 100 mil habitantes, Vitória da Conquista se mantém como a cidade mais segura da Bahia, ocupando a 163ª posição entre os municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes.
Mais impressionante ainda: Conquista conseguiu reduzir sua taxa de letalidade de 70,06% em 2016 para 28,2% por 100 mil habitantes, demonstrando que é possível reverter cenários de violência extrema. Entre janeiro e julho de 2025, Vitória da Conquista registrou uma queda de 52,5% nos Crimes Violentos Letais Intencionais em comparação com o mesmo período de 2024.
Enquanto isso, Jequié permanece mergulhada em índices que mantêm a cidade no topo do ranking nacional, marcada por disputas entre facções e tráfico de drogas, onde campos de futebol se transformam em palcos de execução e jovens são caçados como animais.
A Responsabilidade Compartilhada
Poder Público Municipal
A gestão municipal não pode se eximir de responsabilidade diante de cenas como a do campo de futebol do Joaquim Romão. A ausência de políticas públicas efetivas de prevenção à violência, a falta de investimento em programas sociais para jovens em situação de vulnerabilidade, e a incapacidade de articular soluções intersetoriais são falhas evidentes. Onde estão os programas de esporte e cultura que poderiam transformar campos de futebol em verdadeiros espaços de inclusão social? Onde está o planejamento urbano que evite a formação de territórios dominados pelo crime?
Governo Estadual
O Estado da Bahia, que tem a competência constitucional sobre segurança pública, demonstra uma gestão contraditória. O governador Jerônimo Rodrigues chegou a declarar que “a Bahia é um estado de paz”, numa afirmação que soa quase surrealista diante de jovens sendo executados em campos de futebol em plena luz do dia. Apenas recentemente, após ondas sucessivas de homicídios, o governador anunciou mudanças no comando das operações no presídio de Jequié, revelando ações reativas ao invés de preventivas.
Sistema de Justiça Criminal
O Judiciário e o Ministério Público também carregam sua parcela de responsabilidade. A morosidade processual, a baixa taxa de elucidação de homicídios e a fragilidade do sistema penitenciário contribuem para a sensação de impunidade que alimenta a violência. Quantos dos responsáveis pelos quatro homicídios anteriores ao do campo de futebol foram efetivamente punidos?
Sociedade Civil
Não podemos ignorar o papel da sociedade. O silêncio cúmplice, a normalização da violência – quando cinco mortes em três dias passam a ser tratadas como rotina – e a falta de mobilização cidadã também são fatores que perpetuam o cenário atual. Uma sociedade que se resigna ao caos é uma sociedade que se torna cúmplice dele.
O Exemplo de Conquista: Lições Não Aprendidas
O contraste entre Jequié e Vitória da Conquista não é fruto do acaso. Conquista demonstrou que é possível sair de um cenário de extrema violência através de políticas integradas, investimento em inteligência policial e articulação entre diferentes esferas de poder. A cidade registrou retração de 40% nos homicídios no primeiro semestre, consolidando um cenário onde campos de futebol voltaram a ser espaços de lazer, não de luto.
Enquanto Conquista se reinventou e se tornou referência em segurança na Bahia, Jequié permanece estagnada em seus índices vergonhosos, onde um jovem não pode mais frequentar um campo de futebol sem o risco de não voltar para casa.
O Custo da Inércia
Cada homicídio registrado em Jequié – como o do jovem no campo de futebol do Joaquim Romão – representa uma família destroçada, um futuro interrompido, uma cidade que agoniza. O custo humano, econômico e social dessa crise é incalculável. Quando espaços de convivência se tornam cenários de execução, perdemos não apenas vidas, mas a essência de uma comunidade.
A Urgência de uma Mudança de Paradigma
Cinco homicídios em menos de três dias não podem ser tratados como estatística. Cada um desses números tinha nome, família, sonhos. O jovem morto no campo de futebol poderia estar jogando bola com amigos, não fugindo de assassinos. Esta inversão perversa dos valores sociais exige uma resposta imediata e coordenada.
Conclusão: Responsabilidade Coletiva, Ação Urgente
A responsabilidade pelo caos em Jequié é coletiva e compartilhada. Desde a gestão municipal que não consegue proteger nem mesmo os espaços de lazer da população, passando pelo governo estadual que trata a violência como questão meramente policial, até uma sociedade que naturalizou execuções em campos de futebol como parte do cotidiano.
O exemplo de Vitória da Conquista prova que a transformação é possível. Mas isso exige vontade política, investimento em políticas públicas integradas, fortalecimento das instituições de segurança e, principalmente, o reconhecimento de que cada ator social tem um papel fundamental nessa mudança.
Jequié não pode mais se dar ao luxo da inércia. Cada dia de demora custa vidas – como a do jovem do campo de futebol, como as dos outros quatro mortos nos dias anteriores. A pergunta não deveria ser mais “a quem responsabilizar”, mas sim “o que cada um de nós fará para que campos de futebol voltem a ser lugares de alegria, não de luto”.
O tempo da retórica já passou. É hora da ação coordenada e urgente, antes que mais jovens sejam perseguidos e executados nos espaços que deveriam ser sagrados para uma comunidade. Antes que seja tarde demais para uma cidade que já perdeu muito de sua essência para a violência.





