Política e Resenha

JIMMY CLIFF (1944-2025): O REGGAE PERDE SEU MAIOR EMBAIXADOR

 

 

 

Reportagem especial – Política e Resenha / 24 de novembro de 2025

KINGSTON – A Jamaica acordou em luto nesta segunda-feira. Jimmy Cliff, 81 anos, ícone absoluto do reggae e um dos artistas mais influentes da música caribenha, morreu na madrugada de hoje em sua residência em Saint Andrew, nos arredores de Kingston. A informação foi confirmada pelo perfil oficial do cantor no Instagram, em nota assinada pela viúva, Latifa Cliff, e pelos filhos Lilty e Aken:

“É com profunda tristeza que compartilho que meu marido, Jimmy Cliff, partiu após uma convulsão seguida de pneumonia. Agradeço à família, amigos, artistas e colegas que dividiram essa jornada com ele. Aos fãs ao redor do mundo, saibam que o apoio de vocês foi sua força durante toda a carreira. Ele valorizava profundamente o amor de cada um.”

A causa da morte foi uma parada cardiorrespiratória após crise convulsiva, seguida de pneumonia adquirida nos últimos dias, segundo informou à imprensa o médico da família, Dr. Michael Banbury, do Hospital Universitário das Índias Ocidentais (UHWI).

Do interior de St. James ao mundo

Nascido James Chambers em 30 de julho de 1944, na comunidade rural de Somerton, parish de St. James, Jimmy começou a cantar ainda criança na igreja local. Aos 14 anos já gravava seu primeiro single, “Dearest Beverley”, e, com apenas 17, lançava “Hurricane Hattie” – sucesso imediato que o colocou no radar de produtores de Kingston.

Em 1962, com 18 anos, mudou-se para a capital e assinou com a Island Records de Chris Blackwell, tornando-se o primeiro grande nome jamaicano do selo – antes mesmo de Bob Marley. Nos anos seguintes, hits como “Wonderful World, Beautiful People” (1969), “Vietnam” (1970) e “Many Rivers to Cross” (1969) levaram o reggae para plateias globais, abrindo caminho para a explosão internacional do gênero.

O filme que mudou tudo

1972 foi o ano da consagração. Protagonista e responsável pela trilha sonora do filme The Harder They Come, dirigido por Perry Henzell, Jimmy transformou-se no rosto do reggae no cinema. A obra – hoje considerada cult – vendeu milhões de cópias da trilha e apresentou o som jamaicano a Europa e Estados Unidos como nunca antes. “You Can Get It If You Really Want” e a própria “The Harder They Come” viraram hinos de superação.

Grammy, Ordem do Mérito e conversão

Em 2010, aos 66 anos, Jimmy Cliff recebeu o maior reconhecimento da indústria: foi introduzido no Rock and Roll Hall of Fame. Dois anos depois, levou o Grammy de Melhor Álbum de Reggae com Rebirth (2012), um retorno triunfal às raízes. Na Jamaica, recebeu a Ordem do Mérito (OM), a terceira mais alta honraria civil do país.

Nos anos 1970, converteu-se ao islamismo e adotou o nome El Hadj Naïm Bachir, mantendo, porém, o nome artístico Jimmy Cliff. Nos últimos anos, dividia-se entre a Jamaica, França e Estados Unidos, onde gravava e dava palestras sobre música e espiritualidade.

Repercussão imediata

Nas redes sociais, a comoção é global. O primeiro-ministro da Jamaica, Andrew Holness, declarou luto oficial de três dias e anunciou que o funeral será evento de Estado. “Jimmy foi o nosso maior embaixador cultural. Levou a Jamaica no peito para todos os cantos do planeta”, escreveu.

Bob Marley Estate, Damian Marley, Shaggy, Sean Paul e até Paul McCartney publicaram homenagens. “Jimmy abriu as portas que eu apenas atravessei”, escreveu Junior Gong.

Últimos projetos

Em 2022, aos 78 anos, lançou Refugees, álbum produzido por Tim Armstrong (Rancid) com participações de nomes como Sting e Wyclef Jean. Em entrevistas recentes, dizia que ainda tinha “muitas canções para o mundo” e planejava uma turnê de despedida em 2026.

Jimmy Cliff deixa a esposa Latifa, seis filhos, 14 netos e um legado de mais de 30 álbuns e incontáveis clássicos que continuam a inspirar gerações.

Como ele mesmo cantou em “I Can See Clearly Now” – versão que levou ao topo das paradas em 1993 – “o céu está azul, as nuvens se foram”. Hoje, o céu do reggae está um pouco mais vazio, mas a luz que Jimmy Cliff acendeu jamais se apagará.

One love.