Por José Maria Caires
Há um tipo de cansaço que não se cura com descanso. É aquele que se aloja nos ossos, que pesa na alma de quem acorda todo dia para trabalhar, pagar impostos e acreditar — ainda que com o coração já cheio de cicatrizes — que desta vez será diferente. Que desta vez as autoridades cumprirão o prometido. Que desta vez nossas estradas terão a dignidade que merecemos.
Mas não. Mais uma vez, não.
A licitação da nova concessionária das BRs-324/116, rebatizada pomposamente de Rota 2 de Julho — como se um nome bonito pudesse esconder o abandono —, não sairá em dezembro como nos fizeram crer. Foi adiada para o primeiro semestre de 2026. Em pleno período eleitoral, dizem os técnicos do Ministério dos Transportes, como se isso fosse apenas um detalhe técnico, uma informação protocolar.
Mas não é.
A Dor de Quem Paga e Não Recebe
Para quem não vive aqui, para quem não atravessa esses 663 quilômetros de promessas quebradas, pode parecer pouco. Mais alguns meses, afinal de contas. Mas para nós, contribuintes que sangramos todos os dias nas bombas de combustível, nos supermercados inflacionados, nos boletos que chegam com a pontualidade cruel dos impostos, cada mês é uma eternidade.
Cada dia de atraso é mais um acidente que poderia ter sido evitado. É mais uma família que perde um ente querido em buracos que deveriam ter sido tapados. É mais um caminhoneiro que passa a noite em claro, temendo pela própria vida em estradas sem iluminação, sem acostamento, sem o mínimo de segurança que nosso dinheiro deveria comprar.
Porque nós pagamos. Meu Deus, como pagamos.
O Engano Institucionalizado
O que dói não é apenas o adiamento. O que rasga a carne da confiança é o engano sistemático, a mentira embalada em linguagem técnica, servida com sorrisos em inaugurações e promessas em palanques. Autoridades afirmaram — com a certeza de quem sabe que palavras não custam nada — que a licitação seria em dezembro. Acreditamos. Como tolos esperançosos, acreditamos mais uma vez.
E agora? Agora nos dizem, quase de passagem, entre o leilão de rodovias do Paraná e um café, que na verdade será no primeiro semestre. Período eleitoral. Que conveniente timing, não? Quando todos estarão ocupados com promessas eleitorais, quando a memória do povo estará sendo disputada por santinhos e jingles, quando nossa indignação poderá ser facilmente abafada pelo barulho das campanhas.
O Peso de Ser Contribuinte Neste País
Há algo profundamente desolador em acordar todos os dias para cumprir nossas obrigações fiscais com o Estado, enquanto o Estado não cumpre suas obrigações básicas conosco. Pagamos IPVA para rodar em crateras. Pagamos impostos sobre combustível que é devorado pelas irregularidades do asfalto. Pagamos, pagamos, pagamos — e o que recebemos em troca? Adiamentos. Desculpas. Silêncios constrangedores.
A Via Bahia se foi, deixando feridas abertas. E nós, ingenuamente, ousamos esperar que a nova concessionária viesse rapidamente curar essas chagas. Mas o poder público, em sua infinita capacidade de decepcionar, decidiu que nossa dor pode esperar. Que nossas vidas podem esperar. Que a segurança de nossas famílias pode esperar até depois das eleições, até que seja politicamente conveniente lembrar que cidadãos não são apenas números em pesquisas eleitorais.
A Revolta Que Não Pode Morrer
Mas existe um limite para a paciência humana. Existe um ponto em que a decepção se transmuta em revolta, em que o cansaço se transforma em energia para exigir respeito. E este artigo é um grito — talvez desesperado, certamente indignado — para que não normalizemos mais este tipo de descaso.
Não podemos aceitar que mentir para o povo seja apenas “mudança de cronograma”. Não podemos fingir que está tudo bem quando claramente não está. Nossos impostos não são favores — são direitos transformados em obrigações. E quando pagamos, temos o direito sagrado de exigir contrapartida.
A Rota 2 de Julho deveria ser um símbolo de independência, de caminho para o futuro. Mas está se tornando apenas mais um símbolo de como o poder público nos trata: com desprezo disfarçado de formalidade, com mentiras embaladas em notas oficiais, com promessas que evaporam como a esperança na alma de quem ainda acredita.
Um Chamado à Consciência
Leitor, se você também se sente enganado, se também está cansado de promessas que derretem ao sol da realidade, não deixe esta indignação morrer no silêncio confortável da conformidade. Cobre. Questione. Não aceite adiamentos como se fossem inevitabilidades naturais. São escolhas. Escolhas que alguém fez por nós, sem nos consultar, sem se importar com as consequências reais em nossas vidas reais.
Dezembro virará janeiro, janeiro virará junho, e quando finalmente — se finalmente — essa licitação acontecer, quantas vidas terão sido perdidas? Quantas famílias terão chorado em velórios que poderiam ter sido evitados? Quanto tempo mais teremos que pagar por serviços que não recebemos?
A Via Bahia acabou. Mas nossa necessidade de estradas dignas não. Nossa dignidade como contribuintes não. Nosso direito de exigir respeito, verdade e responsabilidade, definitivamente não.
Que este adiamento não seja apenas mais um entre tantos que virão. Que seja o último que aceitamos em silêncio. Porque já pagamos demais — com nosso dinheiro, com nossa paciência, com nossas vidas — por estradas que continuam sendo caminhos de lágrimas.
E isso precisa acabar. Agora.





