Política e Resenha

Movimento de 1968 ARTIGO – O Picadeiro de Outono: A Utopia como Herança de uma Geração que se Despede

 

 

Padre Carlos

 

Hoje, ao abrir o livro de endereços da alma, compreendi que o tempo não passa — ele talha. Não é um rio que escorre; é um escultor silencioso que vai retirando lascas da nossa convivência até que reste apenas a memória polida.

Os amigos de oitenta anos começam a sair de cena. São homens e mulheres forjados no fogo do Movimento de 1968, protagonistas de uma geração que ousou enfrentar ditaduras, questionar costumes rígidos, desafiar o autoritarismo e reivindicar liberdade, democracia e justiça social. Eles não apenas viveram a História — eles a tensionaram.

E agora, ao vê-los descer do picadeiro da vida, sinto que o espetáculo não termina; ele muda de mãos.

A geração da utopia

Há palavras que hoje parecem ingênuas, quase antiquadas. “Utopia” é uma delas. No entanto, nos anos 60, essa palavra era combustível. Em meio ao endurecimento político, à censura e ao medo, eles ousaram imaginar um mundo diferente. A juventude não aceitava o cinza como destino.

A utopia nunca foi um endereço fixo. Não era um lugar para onde se comprava passagem. Era horizonte. E horizonte, como sabemos, recua à medida que caminhamos. Sua função não é ser alcançado, mas provocar movimento.

Essa geração caminhou sob bombas de gás, enfrentou perseguições, pagou com exílio, prisão, silêncio forçado. Ainda assim, manteve os pés em marcha. Porque entendiam algo essencial: sem sonho coletivo, a sociedade apodrece por dentro.

Hoje, quando falamos em crise da democracia, polarização política, descrédito nas instituições e esvaziamento do debate público, talvez estejamos, na verdade, falando da erosão da utopia.

O legado invisível

A palavra “utopia” vem do grego: ou (não) e topos (lugar). Um não-lugar. Mas para aquela geração, era um lugar interior — um estado de inconformismo permanente.

Eles sonhavam com liberdade de expressão quando a censura era regra. Lutavam por direitos humanos quando a tortura era negada oficialmente. Defendiam participação popular quando o povo era tratado como figurante.

Se hoje falamos com naturalidade sobre democracia, direitos civis, igualdade de gênero, movimentos sociais, participação estudantil, devemos reconhecer: há suor daquela geração impregnado nessas conquistas.

Não romantizo o passado. Houve excessos, erros estratégicos, ilusões ideológicas. Mas houve, sobretudo, coragem moral. E isso é raro em qualquer época.

O outono e a responsabilidade

Vivemos tempos de produtividade sem propósito, de algoritmos que moldam opiniões, de debates rasos e indignações instantâneas. A política virou espetáculo; a informação, mercadoria; a esperança, artigo em falta.

A morte da utopia gera o cinismo. E o cinismo é confortável. Ele nos protege da frustração, mas também nos impede de construir futuro.

Ao ver meus amigos de oitenta anos recolhendo seus figurinos de palco, sinto algo além da saudade. Sinto responsabilidade histórica. A herança que deixam não é patrimônio material; é inquietação.

Eles nos ensinam que a realidade não é sentença definitiva. É rascunho. E rascunhos podem — e devem — ser revisados.

A fresta de luz

Recordo-me de uma imagem: uma porta fechada, pesada, aparentemente intransponível. Muitos desistem ao encarar a madeira maciça. Mas há quem perceba a claridade que passa por baixo da porta. Aquela pequena fresta é suficiente para convencer de que há algo do outro lado.

A geração de 68 viveu olhando para essa fresta.

Hoje, quando falamos em transformação social, reforma política, fortalecimento da democracia, combate à desigualdade, sustentabilidade, direitos humanos, precisamos reaprender a enxergar essa luz. Não com ingenuidade, mas com determinação lúcida.

A utopia não é delírio. É método de caminhada.

Uma homenagem que exige ação

Não basta aplaudir os veteranos do sonho. Não basta publicar fotos amareladas ou fazer discursos nostálgicos. A verdadeira homenagem é continuar andando.

A liberdade não é permanente. A justiça social não é automática. A democracia não é indestrutível. São jardins frágeis que exigem cultivo diário.

Se abandonarmos o horizonte, ficaremos parados — e a estagnação é a antesala da regressão.

Aos meus amigos que chegam aos oitenta: vocês não foram ingênuos. Foram necessários. O mundo que temos hoje, com todas as suas imperfeições, é menos sombrio porque vocês caminharam quando caminhar era perigoso.

O picadeiro de outono não é fim de espetáculo. É troca de turno.

E nós, herdeiros dessa chama, precisamos decidir: seremos espectadores cansados ou artistas do próximo ato?

O horizonte continua lá — distante, desafiador, luminoso.

E enquanto houver alguém disposto a dar mais um passo, a utopia estará viva.