
Você já percebeu como certos gestos dizem mais do que discursos inteiros?
Às vezes, não é uma lei. Não é um projeto. Não é sequer uma fala elaborada.
É um ato — bruto, simbólico, carregado de história — que revela, sem disfarce, o que ainda pulsa nas estruturas mais profundas de um país.
O que aconteceu recentemente na Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP) não foi apenas mais um episódio de conflito político. Foi um espelho. Um daqueles que não perdoam — e que devolvem à sociedade uma imagem incômoda de si mesma.
A representação protocolada por 18 deputados contra a deputada Fabiana Bolsonaro, após a encenação de blackface contra a deputada Érica Hilton, não é um detalhe. É um marco. Um sinal de que ainda estamos, como nação, debatendo o óbvio: a dignidade humana.
E isso, por si só, já deveria nos inquietar profundamente.
O blackface não é um gesto inocente. Nunca foi. Sua origem remonta ao século XIX, quando artistas brancos pintavam seus rostos para ridicularizar pessoas negras, transformando dor em espetáculo, identidade em caricatura, humanidade em escárnio. Reproduzir esse ato hoje — em pleno espaço institucional — não é ignorância. É escolha.
E toda escolha política carrega uma intenção.
No mesmo compasso, na Câmara dos Deputados, outro movimento acende um alerta igualmente grave. A proposta apresentada pela deputada Clarissa Tércio, que busca tornar opcional o ensino da cultura afro-brasileira e indígena nas escolas, toca em um ponto ainda mais sensível: a memória.
Porque um país que negocia sua memória… começa, lentamente, a negociar sua própria alma.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional não incluiu esses conteúdos por acaso. Eles são fruto de décadas de luta, de reconhecimento histórico, de um esforço coletivo para enfrentar o racismo estrutural no Brasil — uma das questões mais pesquisadas no país quando o tema é desigualdade social, educação e direitos humanos.
Retirar, flexibilizar ou esvaziar esse ensino não é “liberdade”. É apagamento.
E o apagamento, você sabe, nunca vem sozinho. Ele traz consigo o esquecimento, a desinformação e, inevitavelmente, a repetição dos erros que fingimos não ver.
Especialistas em educação, a Defensoria Pública da União e diversos grupos de políticas etnorraciais já alertaram: sem o conhecimento das matrizes africanas e indígenas, o Brasil perde não apenas conteúdo escolar — perde identidade.
E identidade não é detalhe. É fundamento.
Agora, permita-me falar mais baixo com você.
Imagine uma criança em uma sala de aula. Ela abre o livro e não se vê ali. Sua história não está contada. Seus ancestrais não existem nas páginas. Sua cultura é, no máximo, um rodapé opcional.
O que essa criança aprende, de verdade?
Não é apenas sobre história. É sobre pertencimento. Sobre valor. Sobre existir.
É nesse ponto que o debate deixa de ser político e se torna profundamente humano.
Há, no entanto, um momento de virada que não podemos ignorar. A reação institucional — a representação, as denúncias, o debate público — mostra que há resistência. Que há consciência. Que há vozes que não aceitam o retrocesso como destino.
E isso importa. Importa muito.
Mas também é preciso dizer com clareza: há uma estratégia em curso. Quando ações como essas surgem, frequentemente vêm acompanhadas de um discurso de “liberdade” — liberdade religiosa, liberdade de expressão, liberdade de escolha.
Palavras nobres. Essenciais.
Mas, quando usadas para justificar exclusão, tornam-se distorções perigosas.
Porque liberdade sem responsabilidade social não é liberdade. É privilégio disfarçado.
O Brasil carrega mais de 300 anos de escravidão. Carrega a violência contra povos indígenas. Carrega desigualdades que ainda hoje se refletem em renda, educação, acesso e oportunidades.
Ignorar isso não resolve. Silenciar isso não apaga.
Apenas perpetua.
E aqui está o ponto central que precisa ecoar: combater o racismo não é uma pauta identitária isolada. É uma condição para qualquer projeto sério de desenvolvimento, democracia e justiça social.
Sem isso, tudo o resto é construção sobre areia.
Talvez você esteja aí, na sua casa, tomando um café, tentando entender por que ainda discutimos temas que deveriam estar superados. Eu também me pergunto.
E talvez a resposta seja dura, mas necessária: porque há quem ganhe com a divisão, com o conflito, com o atraso. Porque há quem transforme o choque em estratégia, o escândalo em visibilidade, o retrocesso em capital político.
Mas há também quem resista.
E é essa resistência que define o rumo de um país.
No fim das contas, a pergunta que fica não é sobre uma deputada, um projeto ou um episódio isolado.
A pergunta é outra — mais profunda, mais urgente:
Que Brasil nós estamos dispostos a deixar para aqueles que ainda estão aprendendo a ler o mundo?
Porque o futuro não será construído apenas com leis ou discursos.
Ele será moldado, sobretudo, pela coragem — ou pela omissão — de quem vive o presente.
E a história, como sempre, não esquece quem escolheu cada lado.