É preciso ter paciência. Muita paciência. Sobretudo quando a história resolve se repetir não apenas como farsa, como queria Marx, mas como um delírio místico-autoritário que faria os reacionários da Revolução Francesa parecerem moderados entusiastas do iluminismo.
Convenhamos, o que assistimos hoje no Brasil — sob a carcaça de conveniência do Partido Liberal ou de qualquer outra sigla que se preste ao papel de hospedeira — não é política. É teologia de quermesse golpista. A extrema direita brasileira, essa que eu chamo com a tranquilidade de quem lê o Código Penal de protofascista (e, em dias de maior clareza, fascista sem o “proto”), bebe na fonte mais turva do antimodernismo.
A Anatomia do “Escolhido”
Dizem-se escolhidos por Deus. Notem a modéstia. O sujeito não quer apenas ganhar uma eleição; ele quer uma unção. Se lá atrás, no lado direito das assembleias francesas, o trono e o altar eram uma unidade para manter privilégios, aqui a coisa ganhou contornos de seita. O “Messias” — e a ironia do nome próprio é um desses requintes da história que nem o melhor romancista ousaria — não se submete a estatutos.
O fascismo, meus caros, não é um figurino de época. Não precisa de camisas negras em Roma ou do horror industrial de Berlim para se validar. Ele é, antes de tudo, um estado de espírito autoritário. Ele se adapta. No Brasil, ele veste verde e amarelo, enrola-se na bandeira e jura amor à “Nação” — essa entidade que eles tratam como um objeto sagrado, mas que, na prática, só inclui quem reza pela mesma cartilha.
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A Sigla é o de Menos: Eles não são fiéis ao PL, ao PP ou ao extinto PSL. São fiéis à “Onda”. Mudam de partido como quem troca de camisa suada, porque o que importa é a densidade da seita, não o programa partidário.
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A Democracia como Estorvo: Para essa gente, as normas vigentes são meras sugestões. A Constituição? Um detalhe burocrático que atrapalha a “missão divina”.
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O Líder como Infalível: O chefe não erra. Se erra, é estratégia. Se perde, foi fraudado. É o pensamento mágico substituindo a lógica aristotélica.
A Nação como Divindade
A nação, essa construção histórica complexa, suada e muitas vezes sangrenta, foi sequestrada. Eles a transformaram em um dogma. Ora, quando você coloca a questão da nação como algo divino e sagrado, você retira a política do campo do debate e a joga no campo da inquisição. Quem discorda não é um adversário; é um herético. É um inimigo da “vontade de Deus”.
É o mesmo DNA que rejeitava a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão em 1789. É a ojeriza ao diferente, o culto à personalidade e a convicção de que existe uma “minoria” (que eles juram ser maioria) eleita para salvar o país da “degeneração”.
É protofascismo? Completamente. É uma seita que se move pelas frestas da democracia para tentar implodi-la por dentro, usando a liberdade que desprezam para pregar o fim da liberdade alheia. E fazem tudo isso, vejam que coisa, em nome da família. Só esquecem de dizer que a família, para eles, só vale se for a deles — e se não houver um Ministério Público no caminho.





