
Padre Carlos
O Rio de Janeiro já não se espanta. E talvez esse seja o sintoma mais trágico do nosso tempo: a capacidade de normalizar o inaceitável, de conviver com a promiscuidade entre política e crime como quem aceita a chuva de verão. A recente decisão da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro — a ALERJ — de revogar a prisão de Rodrigo Bacelar, presidente da Casa, não é um simples movimento institucional. É um grito abafado de um Estado que perdeu a vergonha. É a prova escancarada de que o país convive confortavelmente com sua própria sombra.
Para quem observa a vida pública com um mínimo de honestidade, este episódio não é um ponto fora da curva — é a curva inteira. O caso Bacelar expõe, com a frieza de uma prova criminal, a simbiose tóxica entre política, crime organizado e parte das instituições que deveriam proteger a sociedade. Quando deputados da direita à esquerda votam pela libertação de um presidente acusado pela Polícia Federal de alertar um parlamentar ligado ao Comando Vermelho sobre uma operação sigilosa, não se trata apenas de corporativismo. Trata-se de autopreservação. De medo. De silêncio cúmplice.
O verdadeiro combustível dessa votação não foi convicção política, mas pavor. Pavor de que Bacelar “cante”. Pavor dos celulares apreendidos, que não são um, mas vários — um baú de segredos que ameaça revelar duas décadas de favores escusos, alianças subterrâneas, trocas de proteção e negócios clandestinos. O fio, se puxado, não revela um nó — revela uma trama inteira. Uma trama onde o crime não está à margem da política, mas ocupa assento privilegiado em gabinetes refrigerados.
É por isso que analistas já afirmam, com toda crueza, que o Rio avança rapidamente para o status de narcoestado. Não aquele das séries televisivas, com traficantes governando prédios públicos à luz do dia, mas algo ainda mais perigoso: um narcoestado institucional, onde as fronteiras entre autoridade legal e influência criminosa são tão tênues que quase desaparecem. Quando R$ 90 mil em dinheiro vivo são encontrados no carro oficial do presidente da ALERJ e isso não gera indignação generalizada, algo profundo se rompeu no espírito democrático.
Nos últimos anos, a porta giratória das cadeias fluminenses recebeu quatro presidentes da ALERJ e cinco governadores. Isso deveria provocar espanto nacional. Mas o eleitor fluminense perdeu o ponto de exclamação. A naturalização da barbárie política se tornou rotina. E esse hábito — silencioso, corrosivo — tem transformado o Estado em laboratório avançado de tudo que ameaça a democracia brasileira.
Mas desta vez o enredo mudou de patamar. Não é mais o Judiciário estadual, vulnerável à pressão local, que acompanha o caso. É o Supremo Tribunal Federal. Não é mais a polícia fluminense, frequentemente atravessada por disputas internas. É a Polícia Federal, com autonomia técnica e alcance nacional. A ADPF das Favelas, que chegou ao ministro Alexandre de Moraes, transformou-se em lente de aumento sobre o Rio. Uma lente que enxergou além das vielas onde aconteceram as chacinas no Alemão e na Penha; enxergou também o tapete grosso dos gabinetes onde o poder negocia com o crime.
E o STF, diante desta história, não pode ser neutro. A Constituição determina que ele intervenha quando um poder rompe o equilíbrio do Estado de Direito. A ALERJ cumpriu sua obrigação regimental — ainda que tenha produzido um vexame histórico. Agora, cabe ao Supremo estabelecer as medidas cautelares compatíveis com a gravidade do caso: afastamento, tornozeleira, restrições. Se novas provas surgirem — e virão — a prisão pode voltar. Nada disso fere a Constituição. Tudo isso protege a República.
O Rio de Janeiro está diante de um divisor de águas. Ou o Brasil compreende, de uma vez por todas, que o crime não está apenas no “morro”, mas sentado em gabinetes, comprando silêncios, moldando eleições e orientando decisões políticas — ou continuaremos assistindo à erosão lenta do pacto civilizatório. A democracia não sobrevive quando o Estado se ajoelha diante do crime. E, como articulista que acompanha este país com fé e firmeza, afirmo: não é só o Rio que está em jogo — é o Brasil.
Se o Rio perde essa batalha moral, todos nós perdemos. E perderemos não apenas uma vez — perderemos por gerações.




