
Se tem algo que a política baiana nos ensinou nos últimos anos é que eleição não se decide apenas no grito, na força do governo ou na popularidade do governador. Eleição proporcional se decide na matemática — fria, implacável e indiferente a mitos de poder. É por isso que quem insiste em repetir que “governo sempre reelege todo mundo” está vendendo fantasia. E 2026 será o ano em que essa fantasia vai bater de frente com a realidade.
A tese é simples e impossível de negar: o governo da Bahia tem candidatos demais para cadeiras de menos. E a oposição tem espaço demais para concorrência de menos. Quem acompanha o tabuleiro não precisa de bola de cristal, só de calculadora.
Em 2022, a Assembleia Legislativa da Bahia ficou dividida ao meio: 31 parlamentares do grupo de ACM Neto e João Roma contra os mesmos 31 da base governista. Hilton Coelho, do PSOL, fechou o quadro como voz independente. Hoje, o cenário começou a inverter não por narrativa, mas por uma operação aritmética brutal.
Do lado oposicionista, apenas 16 deputados tentam reeleição, e há oito nomes competitivos prontos para entrar no jogo — Igor Dominguez, Elinaldo Araújo, Ditinho de SAJ, Dr. Pitágoras, Jânio Natal Filho, Suzi Araújo, Wagner Alves de Conquista e Rodrigo Hagge. Traduzindo para o eleitor: se a votação de 2022 se repetir — ou até mesmo não se repetir — entre 4 e 11 vagas podem sobrar para a oposição. É matemática oferecendo terreno fértil para crescimento político.
Do lado governista, a equação é oposta — e trágica. São 39 deputados buscando reeleição. Só aí a disputa já não cabe na urna. E não para por aí: uma fila imensa de ex-prefeitos e lideranças quer entrar no jogo estadual. Luciano Pinheiro, João de Furão, Thiago Gileno, Rowena de Jerônimo, Andreia Castro, Carlinhos Sobral, Quinho Tigre, Leo de Neco, Thiancle Araújo, Juvenilson Passos, Silva Neto, Bete de Zé de Agdônio… a lista parece interminável.
O problema não é ideológico, nem de articulação: é geométrico. Faltam cadeiras para quem precisa delas e sobram candidaturas para quem não pode abrir mão delas. É por isso que os mais experientes já apontam o número que assombra os corredores governistas: pelo menos 23 deputados da base devem perder o mandato em 2026.
O governo sabe disso. Tanto sabe que já se vê nos bastidores o que ninguém admite em público: pressão para recuos, rearranjos silenciosos, pedidos para desistências “patrióticas” e articulações que tentam esconder o óbvio — não existe nominata mágica sem “candidato de rabada”. Alguém vai sangrar. Alguém vai ficar pelo caminho. Vários “alguéns”.
Enquanto isso, a oposição se organiza na maior folga eleitoral dos últimos anos. Nomes competitivos, menos disputa interna, espaço real para vereadores de grandes cidades e quadros emergentes da chamada “banda B”, aqueles que já querem chegar em 2026 de olho em 2028. Não é força externa. Não é acaso. É o resultado direto da equação proporcional.
Muita gente ainda finge que pode arrumar as peças no tabuleiro até que tudo se encaixe. Mas não vai. Os números não mentem. O eleitor decide o peso de cada voto, mas o sistema determina quantos sobrevivem.
2026 não será apenas uma eleição acirrada — será uma eleição em que não vai sobrar pedra sobre pedra. As narrativas apaixonadas darão lugar à matemática. Os caciques vão descobrir que prestígio não garante coeficiente eleitoral. E a ALBA será o palco de uma batalha em que, pela primeira vez em muitos anos, a disputa não será para ver quem ganha mais, mas para ver quem consegue simplesmente continuar existindo.
É fogo no parquinho — e, desta vez, não tem bombeiro com água suficiente.




